REUTERS/Enrique Marcarian
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Candidato kirchnerista divulga eixos de sua política econômica

Propostas de Daniel Scioli seguem linha dos 12 anos de governo dos Néstor e Cristina e foram reveladas em evento na noite de segunda-feira, pouco mais de um mês antes da eleição presidencial

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2015 | 10h34

BUENOS AIRES - O candidato kirchnerista à presidência da Argentina, Daniel Scioli, divulgou na segunda-feira, 21, algumas linhas econômicas que seguirá caso vença a eleição de 25 de outubro. Em um ato que lotou um dos principais teatros de Buenos Aires, o Ópera, Scioli defendeu a controvertida política econômica dos 12 anos de kirchnerismo, com Néstor (2003-2007) e Cristina (2008-2015).

O país é criticado por manter uma inflação anual na faixa de 25%, segundo consultoras independentes - 15% de acordo com o governo - e enfrenta dificuldades com as reservas cambiais, oficialmente em US$ 32 bilhões. Outro problema é que o futuro presidente herdará um déficit fiscal de 5% do PIB, segundo o Centro de Políticas Públicas para a Equidade e o Crescimento.  A escassez de dólares levou o governo a controlar o câmbio - enquanto no mercado oficial a moeda americana vale 9,40 pesos, no paralelo é cotada a 15,5.

O acesso difícil à divisa limitou exportações e importações. Cristina Kirchner não deu sinais de que vá mexer nesses indicadores até a eleição - a presidente chegou a defender recentemente tanto a substituição de importações quanto de exportações. Segundo empresários críticos da linha kirchnerista, a ideia de consumir tudo o que produz isolaria ainda mais o vizinho brasileiro.

"Estou convencido de que a Argentina pode produzir quase tudo", disse no discurso Scioli, governador da Província de Buenos Aires. Ele esperou até o último mês de campanha para divulgar o eixo econômico de um possível governo.

O candidato afirmou que a política cambial em seu governo será fixada pelo o Banco Central, não pelo mercado. "Não quero um paraíso financeiro ou fiscal, mas um paraíso produtivo." O país tem dificuldade para atrair investimentos desde que os próprios dados oficiais perderam credibilidade, depois que o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) mudou metodologias e deixou de divulgar dados como o porcentual de pobreza.

Scioli elogiou a política de desendividamento adotada por Cristina. "Começamos a trabalhar para um mundo livre dos fundos abutres", afirmou, referindo-se aos fundos especulativos que não aceitaram a renegociação feita pelo país e exigem o pagamento do valor integral de seus bônus. Embora representem 7% dos credores, essa cobrança num tribunal americano colocou o país em default parcial há 14 meses. As últimas decisões relacionadas ao tema, na Justiça americana e na ONU, foram favoráveis aos argentinos.

"É a Justiça sobre a especulação e o colonialismo", afirmou Scioli referindo-se a uma resolução não vinculante na ONU que aceita os argumentos argentinos. "Seguiremos trabalhando para pagar 100% de nossos credores, mas em condições justas", acrescentou. Diante de um auditório tomado por militantes, ele usou a expressão "Pátria Grande" para se referir à necessidade de integração regional.

O candidato, considerado um peronista moderado - e por isso criticado pela ala mais dura do kirchnerismo - , colocou como meta uma inflação de um dígito, mas sem ajustes que comprometam os planos sociais que hoje chegam a 28% dos lares argentinos. Scioli citou o papa Francisco, o que faz em todos discursos, para defender "terra, teto e trabalho" para todos. A Igreja argentina critica o aumento da pobreza detectado por medições independentes desde 2011 e critica a decisão do governo de não mensurá-la.

Scioli é o favorito, em uma disputa que o conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, tenta levar para um segundo turno inédito, em novembro. O kirchnerista teve 39,2% dos votos na primaria obrigatória de agosto. O grupo de Macri obteve 30%. Scioli precisar superar os 40% e abrir 10 pontos sobre o segundo colocado para definir a disputa em outubro.

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