Enrique Marcarian/REUTERS
Enrique Marcarian/REUTERS

Candidatos argentinos buscam os 27% de eleitores que admitem mudar o voto

Governista Daniel Scioli e opositores Mauricio Macri e Sergio Massa entram na última semana de campanha com estratégias diferentes, mas um objetivo comum: buscar o voto de cerca de um terço do eleitorado que ainda não está consolidado

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2015 | 05h00

Os  três candidatos argentinos com possibilidade concreta de chegar à presidência dedicarão a última semana de campanha a atrair quase um terço do eleitorado que ainda admite mudar o voto. Favorito, o governista Daniel Scioli tem o maior porcentual eleitores convictos (81,9%), mas também a menor chance de levar o votos dos que estão em dúvida (só 5,4% dos indecisos admite votar nele, segundo a consultoria M&F).

Essa estreita margem deve definir se o país terá no dia 22 de novembro um segundo turno pela primeira vez ou se a eleição será definida domingo. Para terminar logo com a disputa, o candidato que representa o kirchnerismo precisa conseguir 40% dos votos e abrir 10 pontos sobre o segundo colocado. 

Pesquisas divergem se ele conseguirá o primeiro dos dois requisitos (seus números variam entre 38% e 42%). Segundo a M&F, Scioli tem 38,3% das intenções de voto. Seu principal adversário é o conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, que tem 29,2%. O ex-kirchnerista Sergio Massa, que há duas semanas aparecia em tendência de alta, fica em terceiro com 21%.

Os dois opositores teriam maior condição de conseguir esse eleitor ainda inseguro. Entre esse público, 12,9% admitem que poderiam votar em Macri e 18,5% em Massa. Os números são semelhantes aos de outro instituto, o Monitor de Tendências Econômicas e Sociais, que estima em 28,1% os eleitores ainda indecisos. Essa maior capacidade dos opositores captarem os últimos votos disponíveis sugere que a possibilidade de uma decisão em segundo turno ainda é maior, embora Scioli apareça muito perto de alcançar a faixa dos 40%.

Eduardo Fidanza, diretor do instituto Poliarquía, considera difícil que o representante da presidente Cristina Kirchner alcance o público de votantes moderados, peronistas mas afastados do kirchnerismo, que ele corteja há dois meses. 

“Acho que Scioli, ao decidir não participar do debate, definiu sua estratégia principal. Menosprezou os eleitores independentes para tentar o voto peronista de setores pobres que estão na mão de Massa. Essa tática tem custos. O candidato não pode contrariar a presidente e sua margem está muito parecida com o conseguiu na primária de agosto”, disse ao Estado o sociólogo, referindo-se ao debate do dia 6, no qual Scioli foi o único ausente entre os seis candidatos à presidência. Na primária obrigatória de 9 de agosto, o governista conseguiu 38,6% dos votos.

Integrantes da campanha de Scioli confirmaram ao Estado que sua tática agora é buscar os que pretendem votar em Massa, mas não estão seguros (22% de seu público, segundo a M&F). Para isso, a campanha kirchnerista já conseguiu cooptar pelo menos 50 políticos que começaram o ano apoiando o ex-kirchnerista, que rompeu com o governo em 2013 e criou um grupo de parlamentares que impediu Cristina de mudar a Constituição para tentar um terceiro mandato.

“São dirigentes de segunda e terceira linha. Tem um efeito mais moral do que prático”, avalia Andy Tow, cientista político que tem um dos blogs sobre eleição mais conhecidos do país.

O consultor e sociólogo Ricardo Rouvier concorda. “Essa tática de Scioli tem mais peso nas próprias filas, não tanto entre os eleitores. Em alguns atos de campanha, a presidente e Scioli aparecem juntos, em outros não. Isso está calculado. Cristina quer mostrar poder em sua despedida. Por outro lado, Scioli mira os mais independentes quando está sozinho”, diz.

Com maior possibilidade de chegar aos indecisos, os dois opositores ainda apelam para o argumento do voto útil, apresentando-se como a alternativa para encerrar 12 anos de kirchnerismo – Cristina deixará o poder em 10 de dezembro após dois mandatos. 

Massa defende o “voto inteligente” dos eleitores pragmáticos, com base em pesquisas que apontam que só ele teria condições de bater Scioli em um eventual segundo turno. Macri contra-ataca afirmando que, se os antikirchneristas não se unirem em torno dele já no próximo domingo, não haverá nova votação em novembro. 

Massa adotou nos últimos meses um discurso conservador, em que promete prisão perpétua para envolvidos com o narcotráfico e o uso do Exército no combate à venda de drogas em favelas. A favor de Macri está o dado de que Massa evitou a polarização prevista entre o conservador e Scioli, mas as pesquisas sugerem que ele perdeu força para chegar ao segundo lugar.

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