REUTERS/Enrique Marcarian
REUTERS/Enrique Marcarian

Candidatos divergem sobre urgência de mudança na Argentina

Kirchnerista evita dar prazos para correções ‘graduais’ e opositores também discordam sobre momento para retirar controle sobre dólar, que no mercado paralelo valia ontem 70% mais do que no oficial, um recorde que tende a ser batido até a eleição de domin

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

21 Outubro 2015 | 05h00

 BUENOS AIRES - Numa disputa em que os eleitores mal conseguem apontar a institutos de pesquisa diferenças entre os três principais candidatos à presidência argentina, há uma divergência importante entre os postulantes. Há planos variados para lidar com a falta de dólar e o controle sobre o câmbio, fatores que levaram a moeda americana a valer ontem 70% mais no mercado paralelo que no oficial, recorde sob risco até a eleição de domingo.

A disparidade entre o que o kirchnerismo acha que o dólar vale e o que ele vale afeta o cotidiano de eleitores interessados em ao menos “empatar” com a inflação - de 15% para o governo e 25% para consultoras independentes. Leandro Iankelevich vive em Munro, no norte da região metropolitana de Buenos Aires, área cobiçada pelos candidatos por conter 25% do eleitorado. Todo mês, pede autorização ao Fisco para comprar dólares. Nunca sabe se conseguirá, nem em que quantia. Na última vez, obteve US$ 600, que guardou, como habitualmente, em casa. 

“Tem gente que guarda mesmo no colchão, em gavetas. Uma minoria tem conta em dólares no banco”, afirma o administrador de 36 anos. Na crise econômica e institucional de 2001 e 2002, quem tinha contas em dólar ficou com praticamente um terço do valor real com a “pesificação” das economias.

Inankelevich compra a moeda por 9,50 pesos, a cotação oficial, e poderia vendê-la por 16,13 (valor recorde atingido ontem). “Prefiro guardar como investimento, mas muitos dos meus amigos fazem a ‘bicicleta’”, diz. O meio de transporte popular em Buenos Aires empresta o nome à operação pela qual se lucra 70% com uma “pedalada”. O administrador diz que nunca “pensou verde”, como os argentinos descrevem a preferência pela moeda americana. Começou buscar todos os dólares possíveis a partir de 2011, quando o governo estipulou o controle.

Ele guarda o dinheiro para as férias anuais, normalmente em países distantes, mas eventualmente vizinhos. Na última vez que esteve no Brasil, surpreendeu-se com a variedade de tipos de pães e os preços em Porto Alegre. “Com a desvalorização do real, tudo ficou muito mais barato. Até comprei um aspirador, pois na Argentina não encontramos sem fio.” As travas às importações, outra decorrência do acesso limitado ao dólar, bloquearam a entrada de alguns produtos. 

“É uma coisa que precisará ser mudada. Quem colocará dólar num país se não pode retirá-lo?”, disse ao Estado o sociólogo e consultor Ricardo Rouvier.

Os três principais candidatos prometem atrair investimentos, mas não deixam claro o método. Apoiado por Cristina Kirchner, o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, não pretende mexer no câmbio a curto prazo. Na semana passada, nomeou Silvina Batakis para o cargo de ministra da Economia. Conhecida como “a grega”, ela exerce a mesma função na província. Em agosto, disse que considerava inadequada uma desvalorização sem primeiro elevar as reservas em dólar do país, hoje em US$ 27,6 bilhões. Ao referir-se à fixação dos argentinos por poupar em moeda estrangeira, citou o exemplo do filho, que pediu a ela US$ 10 de aniversário.

O conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, tem feito uma campanha com propostas vagas. Aposta que um possível segundo turno será definido não por ideias, mas pela contraposição entre continuidade e mudança (mencionada por 60% da população). Em relação ao dólar, entretanto, é taxativo. “Vou retirar o controle sobre o dólar no primeiro dia de governo”, diz. O ex-kirchnerista Sergio Massa estipulou um prazo de 100 dias derrubar o “cepo”, nome de uma tortura que imobiliza a vítima e apelido dado ao controle cambial. 

Na primária obrigatória do dia 9 de agosto, Scioli obteve 38,6% dos votos. O grupo de Macri teve 30% e o de Massa, 20,5%. As últimas pesquisas mostram números semelhantes, o que levaria a um segundo turno em 22 de novembro. Para vencer no domingo, Scioli precisa alcançar 40% e abrir 10 pontos sobre o segundo colocado, possibilidade também contemplada pelos levantamentos, em função da margem de erro. 

Outra promessa de Scioli é baixar a inflação para um dígito em quatro anos. “A maior parte dos meus amigos faz a ‘bicicleta’ para fazer compras ou pagar alguma dívida. Alguns conseguem dólares para viajar, mas não usam o dinheiro nisso. Gastam o que podem no cartão de crédito, que usa a cotação oficial. Quando voltam, trocam os dólares no paralelo e pagam as férias”, afirma. Outro jeitinho argentino é trazer roupas e perfumes para revender e bancar o passeio. “Estamos tão acostumados a essas coisas malucas que quando o Fisco muda o sistema para permitir a quem tem sorte de comprar dólar fazê-lo pela internet, ficamos felizes, em vez de achar tudo um absurdo.”

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