Candidatos locais do PRI reaparecem no sul do México Ofensiva a carteis amplia sequestros

Centenas de pessoas desapareceram no norte do México desde 2006 e não voltaram mesmo depois de resgates serem pagos

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL, MONTERREY, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2012 | 03h08

Em maio de 2010, homens armados entraram na casa da professora Leticia Hidalgo em Monterrey e levaram Roy Hidalgo, seu filho. O estudante de Filosofia não voltou a ser visto, a não ser em cartazes, ao lado das centenas de pessoas que desapareceram no norte do México desde que o governo iniciou, em 2006, uma ofensiva contra o narcotráfico.

No sábado, parentes e amigos de desaparecidos reuniram-se diante da sede do governo de Monterrey para expor um dos principais desafios do novo presidente: esclarecer os sequestros, que acabam com resgates pagos sem que os reféns apareçam.

"Alguns dos que atacaram nossa casa usavam coletes da polícia", diz Leticia, com a foto do filho presa à blusa branca por um alfinete. "Pagamos o que eles pediram e nunca houve avanço na investigação. Nossa vida passou a ser procurar Roy."

Segundo o especialista em segurança René Jiménez Ornelas, da Universidade Nacional do México, estima-se que apenas 4% dos sequestros sejam reportados à polícia. E apenas 2% são investigados. "Há 15 anos, moradores da Cidade do México migravam para Monterrey justamente atraídos pela segurança. Hoje, estão fazendo o caminho inverso", afirma.

Do ponto de vista político, o surto de sequestros tem tanto ou mais impacto que os mortos na guerra aos traficantes. E enquanto boa parte das baixas no conflito são de soldados do tráfico - segundo o governo, 90% dos cadáveres são de criminosos, embora não haja um controle preciso -, entre os alvos dos sequestradores estão famílias de classe média, como a de Leticia.

A multiplicação dos sequestros é consequência direta da ofensiva contra os grandes cartéis. O ataque aos chefes do narcotráfico, desencadeado pelo presidente Felipe Calderón, provocou mudanças frequentes no comando dos grupos criminosos e animou integrantes de posto médio na hierarquia do crime a montar o próprio negócio.

Estas "máfias locais", sem chance nas rotas de tráfico dominadas por cartéis como Sinaloa e Los Zetas, diversificaram as atividades, incluindo crimes como extorsões a empresários, recrutamento forcado de imigrantes a caminho dos EUA e sequestros.

O sobrinho da enfermeira Yolanda Navarro Escobar foi capturado na cidade de Santiago, no litoral norte do México. Assim como Leticia, Yolanda entrou para o grupo Bordadeiras pela Paz de Nuevo León, Estado cuja capital é Monterrey. Como estratégia de pressão, o grupo costura em lenços brancos o nome e as circunstâncias dos desaparecimentos. Durante a votação de ontem, os lenços foram pendurados na grade que isola o palácio de governo de Monterrey de manifestantes.

César Garibay, candidato a prefeito de um cidade no sul do México pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), foi encontrado ontem ferido depois de ser sequestrado no sábado. Na semana passada, um outro candidato a prefeito do PRI no sul do país, Marcelo Ávila Velázquez, reapareceu após ser levado de casa por três homens armados. Vários candidatos a cargos locais renunciaram nas últimas semanas por causa de ameaças de grupos do crime organizado.

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