Agustin Marcarian / Reuters
Agustin Marcarian / Reuters

Candidatos na Argentina evitam constrangimentos

Presidente Mauricio Macri não quer falar sobre economia e seu adversário, Alberto Fernández, tenta descolar sua imagem da de Cristina Kirchner, sua companheira de chapa

The Economist, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2019 | 03h00

O Rio Matanza, conhecido como Riachuelo, é um dos mais poluídos do mundo. Fluindo para o sul de Buenos Aires, transporta detritos humanos e industriais para o Rio da Prata. O governo da Argentina está limpando o rio com um empréstimo de US$ 1 bilhão do Banco Mundial. O projeto inclui esgoto e água limpa para 4 milhões de pessoas. “Não há nada de espetacular ou vistoso sobre isso”, diz o chefe de infraestrutura do governo, Pablo Bereciartua. “O que pode ser mais importante do que a água limpa?”

A despoluição do Riachuelo é um reflexo da eleição na Argentina. O presidente Mauricio Macri planeja colocar esses projetos no centro de sua campanha à reeleição, lançada em Buenos Aires no dia 10. 

Em anúncios na TV e nas redes sociais, ele promove as obras realizadas por seu governo. “Esta não é uma história que está sendo contada para você. É para valer”, diz Macri a um eleitor, que está de joelhos examinando uma estrada recém-asfaltada, em um dos comerciais. Então, o próprio presidente se inclina para dar uma palmadinha no asfalto.

Os aliados de Macri estão promovendo estradas e esgotos porque não se atrevem a falar de economia. A inflação anual é superior a 50%, o PIB vem encolhendo desde meados do ano passado e a taxa de desemprego chega a 10%. O governo está cortando gastos e elevando os preços dos serviços públicos para pagar um empréstimo de US$ 57 bilhões do FMI.

O principal concorrente de Macri, Alberto Fernández, também promove uma campanha dedicada a distrair a atenção do eleitor. Ele quer que eles esqueçam o histórico de sua mentora política, Cristina Kirchner, que foi presidente de 2007 a 2015 e é sua companheira de chapa. Foi o governo de Cristina que contribuiu para a inflação e a recessão atual. Ela e vários funcionários de seu governo estão sendo julgados por corrupção. Um terço dos eleitores, principalmente os mais pobres, ainda gosta dela, mas a classe média estremece só de lembrar de sua presidência.

Fernández é pouco conhecido. Ele quer que os eleitores acreditem que ele é independente. Em sua propaganda, ele se declara uma “pessoa comum” e joga uma bola para seu cachorro Dylan. Quando uma imagem de Cristina aparece de forma rápida, ele enfaticamente diz que, quando discorda de algo, diz logo “não”. Ele e Cristina são os mais proeminentes dos candidatos que fizeram carreira no peronismo, que domina a Argentina desde os anos 40. Um terceiro candidato tem a mesma origem. Roberto Lavagna, ministro da Economia de um governo peronista no início dos anos 2000.

A necessidade de mudar de assunto puxou as duas campanhas principais para o centro das atenções. Macri recrutou um importante peronista, o senador Miguel Ángel Pichetto, para ser seu vice. Em comparação com Cristina, Alberto Fernández é um moderado pragmático. Embora prometa “refazer” o acordo com o FMI, se eleito, garante que fará isso respeitando os compromissos internacionais da Argentina.

Primárias

O primeiro teste das duas campanhas é no dia 11 de agosto, quando os partidos realizarão as eleições primárias que oficializam as candidaturas. Todos concorrem sem oposição. Portanto, a principal questão será saber quantos eleitores participarão das prévias em cada coligação. Em outubro, os argentinos também elegerão um novo Congresso e os governadores da maioria das províncias.

Pesquisas realizadas em junho sugerem que Macri está atrás de Fernández, mas ganhando votos. Isso se deve, em parte, aos sinais de que as políticas econômicas estão começando a funcionar. A inflação vem desacelerando desde abril. O peso se estabilizou depois que o FMI autorizou o Banco Central a gastar mais dinheiro para defendê-lo. O spread da taxa de juros dos títulos argentinos sobre os emitidos pelos EUA, uma medida do risco-país, caiu de 10 pontos porcentuais para cerca de 8. Especialistas esperam que Macri e Fernández sobrevivam ao primeiro turno, em 27 de outubro. Sergio Berensztein, analista político, disse recentemente a investidores estrangeiros que Macri tem “uma chance real de lutar” para vencer no segundo turno, em 24 de novembro. Ajudaria se a economia lhe desse algo para promover. / Tradução de Claudia Bozzo

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