Candidatos peruanos encerram campanha com comícios lotados

"Em outubro de 2000, este comandante que vos fala se levantou em armas contra um governo (de Alberto Fujimori) corrupto que saqueava o Peru. Então, não preciso dizer o que acontecerá com os corruptos num governo nacionalista", discursou o candidato da União Pelo Peru - uma coligação liderada por seu Partido Nacionalista Peruano - no comício de encerramento de sua campanha em Lima, a capital peruana, nesta quarta-feira. Ante os 30 mil partidários, segundo a polícia (60 mil, de acordo com os organizadores), Humala tentou responder às acusações de seus adversários, que qualificam sua candidatura como uma ameaça ao Estado de direito, à liberdade de expressão, aos direitos humanos e ao livre mercado. Acusações potencializadas pela grande mídia peruana, que abraçou sem disfarces a campanha anti-Humala. "Basta de mentiras e de semear na população o medo do nacionalismo", disse o candidato. "Os outros candidatos procuram transformar a eleição numa disputa entre a democracia e a ditadura. Pois lhe dizemos, vamos limpar o país da corrupção pela via democrática." A desorganização do comício refletiu a fraca estrutura de uma candidatura que cresceu num ritmo vertiginoso - com o combustível do descontentamento e da frustração de expectativas com o governo de Alejandro Toledo - e já tem garantida, pelo menos, a passagem para o segundo turno da eleição presidencial, em 7 de maio. No centro de Lima, já na madrugada de quinta pelo horário do Brasil, uma jornalista do diário La República e dois cinegrafistas estrangeiros foram agredidos por partidários de Humala. Monumentos do centro de Lima foram pichadas durante o comício e o gramado do Paseo de los Héroes Navales ficou praticamente destruído. Depois de se atrasar por quase uma hora e meia, o candidato discursou por cerca de uma hora. Durante o discurso, Humala reiterou que pretende revisar os contratos com as transnacionais e disse que, depois de receber a faixa presidencial de Toledo, dirá ao atual presidente que ele estará proibido de deixar o país - até que seus atos de governo sejam investigados. O comício foi a única aparição pública de Humala na quarta-feira. Para não ter de enfrentar perguntas de jornalistas, Humala deixou o quarto do Hotel Sheraton, onde aguardava o momento de discursar, pelo porão - de onde foi levado até o palanque sob um forte esquema de segurança. Era a segunda vez do dia que evitava perguntas que poderiam ser desconfortáveis. A razão para isso estava nas manchetes de quase todos os jornais do país. Na véspera, o diário argentino Página 12 tinha publicado uma entrevista com o candidato nacionalista na qual ele declarou que caso sua rival Lourdes Flores, da Unidade Nacional, fosse eleita, ela seria deposta em menos de um ano - algo interpretado pelos candidatos que se opõem a ele como uma ameaça de golpe. Força maior Diferentemente dos demais candidatos, que escolhem os cinco-estrelas dos elegantes distritos de Miraflores e San Izidro, Humala tinha marcado seu encontro com jornalistas peruanos e estrangeiros para o decadente Hotel Riviera - no centro velho e permanentemente congestionado de Lima. Só quando dezenas de jornalistas já o esperavam no hotel, o cancelamento da entrevista foi informado. Sua confusa assessoria de imprensa alegou "motivo de força maior", não especificado, para o cancelamento. Repórteres peruanos afirmaram que esse tipo de atitude exemplifica o que chamam de "estilo Humala", de planos improvisados e decisões intempestivas. A agenda do candidato é divulgada apenas na véspera dos compromissos de campanha, e está sempre sujeita a alterações de última hora. Adversários Após o gigantesco comício que encerrou a campanha de Ollanta Humala em Lima, na véspera, seus principais adversários, Lourdes Flores e Alan García, esperavam para quinta-feira um grande público para as suas respectivas festas de encerramento, a menos de mil metros de distância uma da outra. Pela manhã, ambos concederam entrevistas coletivas e se disseram confiantes com a possibilidade de irem ao segundo turno. Lourdes, que promete melhorar ainda mais os resultados econômicos do governo de Alejandro Toledo, voltou a acusar Humala de promover a divisão do país e a qualificar sua eleição como "um salto no abismo". A candidata da Unidade Nacional, opção preferida dos empresários peruanos, também criticou o que chamou de "expansionismo do eixo Fidel Castro-Hugo Chávez". "Sei que o presidente Chávez tem criticado a minha candidatura, mas eu digo apenas que saberei respeitar a soberania de seu país quando tivermos de trabalhar junto na Comunidade Andina", disse. "Acho que cabe agora aos peruanos decidir que tipo de relação vão querer ter com os outros países do continente." A candidata também ressaltou que pretende ter "laços construtivos" com o Chile, "que é governado por uma grande mulher (Michelle Bachelet)". Lourdes citou o Brasil, em meio a outros países da região, afirmando que vai manter boas relações com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. García, por seu lado, preferiu abordar temas internos, prometendo forte investimento em educação. Indagado por um jornalista boliviano sobre como ele via o plano de nacionalização do governo de Evo Morales, respondeu: "Esse é um problema de vocês, que nós não temos como resolver."

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