REUTERS/Ivan Alvarado
REUTERS/Ivan Alvarado

Candidatos radicais na América Latina crescem na pandemia

Crise não faz distinção ideológica, afeta a popularidade de governos latino-americanos e impulsiona líderes extremistas em vários países da região

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2021 | 05h00

SANTIAGO - A pandemia vem passando uma rasteira nos governos latino-americanos, sem distinção ideológica. No México e na Argentina, partidos de esquerda perderam espaço nas últimas eleições legislativas. No Chile e na Colômbia, os conservadores estão a ponto de serem escorraçados nas urnas. Da desordem trazida pela covid, porém, surgem alguns vencedores: os candidatos radicais, que vêm conseguindo canalizar a insatisfação popular. 

Com 600 milhões de habitantes, a América Latina desafia generalizações, mas segue alguns padrões. Os países da região têm o crescimento econômico mais lento do mundo, são os mais violentos e mais desiguais. Agora, enfrentam o fenômeno comum da radicalização política. 

No Chile, o favorito na eleição presidencial de novembro é Gabriel Boric, jovem de 35 anos, torcedor fanático da Universidad Católica. Esquerdista moderado, apesar da aliança com o Partido Comunista, sua vitória seria um movimento natural do pêndulo da política chilena, se afastando do conservadorismo do presidente, Sebastián Piñera, de volta ao campo da centro-esquerda – como antes o poder escorregou das mãos da socialista Michelle Bachelet na direção oposta. 

A novidade, porém, é o crescimento da extrema direita. José Antonio Kast, de 55 anos, conhecido por defender a ditadura de Augusto Pinochet, aparece em segundo lugar – à frente do candidato de Piñera, Sebastián Sichel, que corre risco de nem sequer chegar ao segundo turno. “Dizem que sou radical. Mas radical em quê?”, disse Kast, que não esconde sua admiração por Donald Trump e costuma elogiar Jair Bolsonaro.

Na Colômbia, o cenário também favorece um voto radical. O país é um ponto fora da curva na América Latina: nunca teve um governo de esquerda. Mas, na eleição presidencial de março de 2022, todas as apostas são em Gustavo Petro, um ex-guerrilheiro do Movimento 19 de Abril (M-19), que perdeu a última eleição para Iván Duque, em 2018. 

A birra dos colombianos com a esquerda vinha de anos da desastrosa campanha militar das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), da proximidade com os EUA – durante a Guerra Fria e na luta contra o narcotráfico – e do antagonismo com a vizinha Venezuela. Todos esses obstáculos se foram. As Farc se desmobilizaram, a União Soviética caiu juntamente com o império dos cartéis de Cali e Medellín e a crise destruiu toda influência que tinha o chavismo na Colômbia.

Em meio à pandemia e ao fluxo de 2 milhões de refugiados venezuelanos, Duque trocou os pés pelas mãos. Ele passou seu primeiro ano de mandato tentando desfazer o acordo de paz com as Farc, o segundo enviando tropas para reprimir protestos, o terceiro em lockdown e finalmente virou uma carta fora do baralho depois de propor um aumento de impostos, que provocou nova revolta popular e a renúncia de seu ministro das Finanças, Alberto Barrera.

"Petro é favorito”, disse Raúl Gallegos, consultor da Control Risks, em Bogotá. “Ele traz uma coalizão que mistura o antiestablishment, os pobres e a classe média progressista que se preocupa com questões ambientais e com os direitos das minorias.”

A pandemia também chamuscou governos de esquerda na América Latina. As eleições legislativas de junho enfraqueceram o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, e seu partido, o Morena, que perdeu a maioria absoluta que tinha no Congresso. Na Argentina, o presidente Alberto Fernández também saiu derrotado das primárias de setembro, votação que consagrou o ultradireitista Javier Milei, que obteve mais de 13% dos votos pela primeira vez.

 A pandemia atingiu a América Latina com mais força do que qualquer outra parte do mundo. Mais de 25 milhões foram infectados e quase 1 milhão morreram. No entanto, analistas dizem que a covid não está na origem do problema, ela apenas exacerbou a insatisfação em uma região que já estava de cabeça para baixo nos últimos meses de 2019 – como nos protestos no Chile, que impulsionaram o plebiscito que aprovou a convocação de uma Assembleia Constituinte, no ano passado.

“A covid enfraqueceu as já frágeis estruturas institucionais democráticas da região. Ela multiplicou as fontes já abundantes de desilusão com os governos latino-americanos, incluindo as queixas com relação à incapacidade dos sistemas públicos de saúde”, escreveu Evan Ellis, em artigo para o Center for Strategic and International Studies. Para ele, a vitória de Pedro Castillo, candidato de extrema esquerda nas eleições presidenciais do Peru, foi impulsionada pela radicalização da política, influenciada pela pandemia na América Latina.

Cynthia Arnson, analista do Wilson Center, não acredita que a pandemia tenha favorecido um ou outro campo ideológico. “Por conta do impacto econômico e de saúde devastador da pandemia – e da corrupção que a acompanha –, o sentimento geral é de se livrar dos políticos tradicionais. Ela criou um ambiente volátil”, disse. “A expectativa é que mais outsiders ganhem eleições.” /  AP e REUTERS

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