Candidatos rejeitam declarações do embaixador dos EUA na Bolívia

O embaixador dos Estados Unidos na Bolívia, Manuel Rocha, conseguiu uma proeza no mundo político, sobretudo para um diplomata: desagradar a todo mundo. Os principais candidatos a presidente na eleição de domingo rejeitaram as declarações do embaixador, que aconselhou os bolivianos a não votarem no líder cocaleiro Evo Morales, quarto colocado nas pesquisas, e ameaçou com a retirada da cooperação econômica americana, caso ele se eleja ou participe de um governo de coalizão. "Respeito as declarações das pessoas, mas não podem invadir a soberania do nosso povo", reagiu o capitão da reserva Manfred Reyes, que segue na frente, embora em queda, com 20% das intenções de voto, segundo a última pesquisa do instituto Mori. "Lamento profundamente a declaração do embaixador dos EUA, porque nós, bolivianos, estamos orgulhosos de nossa democracia", disse o ex-presidente (1993-97) Gonzalo Sánchez de Losada, que tem 17%. "Nós, bolivianos, definimos nossa preferência eleitoral, sem pressões e no marco da nossa democracia", disse um porta-voz do Movimento da Esquerda Revolucionária, do também ex-presidente (1989-93) Jaime Paz Zamora, terceiro colocado, com 13%. ReaçãoA declaração de Rocha não foi gratuita, mas uma reação a semanas de provocações de Evo Morales, que acusou a embaixada americana de ameaçá-lo de morte e prometeu, se eleito, fechar os escritórios da Agência de Combate às Drogas (DEA) na Bolívia. Morales, deputado e candidato pelo Movimento ao Socialismo, com 12% das intenções de voto - e subindo -, tem como base eleitoral os camponeses obrigados pelo atual governo a abandonar os cultivos ilícitos de coca, praticamente erradicados na Bolívia. O protagonismo político americano não é algo insólito na Bolívia. Como noutros países da América Latina, a embaixada americana é um potentado e serve de referência para a política interna. O embaixador fez as declarações enquanto participava, como se fosse um político local, da inauguração de um aeroporto, em Chimoré, na região cocaleira de Chapare, e ao firmar um convênio de US$ 48,2 milhões para substituição da coca por cultivos ilícitos. "Quero recordar ao eleitorado boliviano que, se elege os que querem que a Bolívia volte a ser um importante exportador de cocaína, esse resultado porá em perigo o futuro da ajuda dos Estados Unidos ao país", advertiu Rocha, numa das muitas frases contundentes que proferiu durante a cerimônia. "Uma Bolívia dirigida por gente que se tem beneficiado do narcotráfico não pode esperar que os mercados dos Estados Unidos se mantenham abertos às exportações tradicionais, como os têxteis. E, muito mais importante, o mercado de gás da Califórnia está aberto a uma Bolívia que sai do circuito da coca-cocaína", completou, referindo-se às perspectivas de suprimento do gás boliviano para o Estado americano que sofre de escassez de energia. ConstrangimentoConstrangido, o presidente boliviano, Jorge Quiroga, preferiu não comentar as declarações do diplomata. Rocha pertence ao grupo do subsecretário de Estado para a América Latina, Otto Juan Reich, cubano-americano como ele, engajado numa cruzada contra o regime de Fidel Castro e artífice do renovado protagonismo americano, já testado na Venezuela e na Colômbia. O que mais irritou os candidatos não foi a ingerência em si, mas o quanto ela pode ajudar Evo Morales, em vez de atrapalhar. "Tenho certeza de que, com essas palavras (do embaixador), Evo tenha somado mais votos para o dia 30 de junho", lamentou Moisés Jarmuz, coordenador da campanha de Johnny Fernández, quinto colocado nas pesquisas.

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