'Candidatos têm visões opostas de diplomacia'

Para especialista, debate sobre segurança e diplomacia pode ser decisivo na reta final da campanha americana

Entrevista com

BRUNA RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2012 | 03h04

O democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney têm visões antagônicas sobre diplomacia e segurança interna. Enquanto o presidente é pró-ativo e tenta antecipar riscos, o ex-governador de Massachusetts é reativo. Essa é a opinião do professor da Universidade de Defesa Nacional dos EUA, Salvador Raza. Ele falou ao Estado sobre as principais questões de segurança internacional a pouco mais de um mês da eleição presidencial. A seguir, trechos da entrevista.

A questão da segurança internacional é levada em conta pelos eleitores americanos?

Sim. Os militares são uma das instituições com maior grau de confiança entre os americanos, com mais de 70% de aprovação. Até um mês atrás, o que definiria as eleições era a economia, mas as duas estratégias são parecidas. Hoje, o que vai definir é a segurança internacional.

Quais são os grandes desafios para a segurança no mundo hoje?

A proliferação nuclear e química, conflitos regionais - principalmente quando são patrocinados por organizações terroristas -, guerra civil em Estados falidos e terrorismo. Hoje, os EUA lidam com 55 organizações terroristas internacionais. O país tem uma grande preocupação de segurança com a possibilidade de uma recessão global e com o aumento da pobreza.

Que ferramentas tem o americano para enfrentar isso?

A diplomacia americana sofreu cortes muito grandes de orçamento nos últimos anos. O Departamento de Estado ganhou responsabilidades na área de Defesa, mas não houve uma transferência igual de recursos. Nos últimos dois anos, estamos vendo muita bobagem e amadorismo na diplomacia, tanto na parte de análise quanto na gestão da crise. O corpo diplomático precisa de uma reforma grande. E já está fazendo isso.

Qual a diferença da diplomacia de democratas e republicanos?

Na área de segurança, a diplomacia de Obama identifica os riscos de forma dedutiva. Ela constrói modelos da realidade, cria o conceito e busca que esse modelo aponte onde você tem instabilidades emergentes. Você gerencia a emergência de um novo fenômeno antecipadamente. Com isso, reconfigura o problema o tempo todo. A lógica dos republicanos é identificar os riscos de forma indutiva. Nela, há sempre um conjunto de instabilidades possíveis e você gerencia o nível de tensão. Um se torna mais pró-ativo. O outro, mais reativo. Eles veem o mundo de uma forma muito diferente.

Como os EUA se protegem hoje de possíveis ataques?

Há algo muito importante chamado "proteção de estrutura crítica". Neste ano, ela deve consumir US$ 70 bilhões, o dobro do orçamento de Defesa do Brasil. Há uma tensão muito grande a respeito de como proteger essa infraestrutura de ataques cibernéticos. O americano reconhece que não consegue proteger todas as áreas e está tendo de reinventar o conceito de defesa.

E qual é a principal responsabilidade internacional dos EUA?

A primeira preocupação é com o Afeganistão. Como eles sairão de lá? As forças estão a cerca de 1.500 quilômetros do mar. É uma distância brutal e eles terão de transportar cerca de 50 mil contêineres. O EUA deixarão o Afeganistão sob muita tensão.

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