MIGUEL ROJO / AFP
Juan Sartori lança sua disputa pela vaga do Partido Nacional, em março   MIGUEL ROJO / AFP

Candidatura de bilionário cresce e vira surpresa das eleições no Uruguai 

Juan Sartori, de 38 anos, discípulo de Trump e fã de Bolsonaro, embola disputa das prévias do Partido Nacional, marcadas para dia 30; casado com a filha de um magnata russo, ele aposta que os ventos populistas também soprarão em Montevidéu

Carlos Tapia, ESPECIAL PARA O ESTADO / MONTEVIDÉU

22 de junho de 2019 | 20h30

Um bilionário de 38 anos bagunçou a eleição presidencial uruguaia. Nas últimas semanas, Juan Sartori vem crescendo nas pesquisas e tirando a vantagem do então favorito Luis Alberto Lacalle Pou pela vaga de candidato do Partido Nacional nas primárias do dia 30. Sartori é admirador de Donald Trump e de Jair Bolsonaro e aposta que os ventos populistas também soprem no Uruguai

A eleição uruguaia está marcada para 27 de outubro. Embora a governista Frente Ampla lidere com 36% das intenções de voto, a sensação é a de que o próximo presidente sairá das prévias do conservador Partido Nacional. 

Historicamente conhecidos como “blancos”, eles estão em segundo com 29%, o suficiente para disputar o segundo turno e atrair o voto da oposição ao desgastado governo de centro-esquerda, há 15 anos no poder.

Em janeiro, Sartori esteve com Bolsonaro no Fórum Econômico de Davos. “Tire a esquerda de lá”, recomendou o brasileiro. Latifundiário, dono do Sunderland, time de futebol inglês, e marido de Ekaterina Rybolovleva, filha de um magnata russo, Sartori faturou US$ 50 milhões com a venda de maconha legalizada no governo de José “Pepe” Mujica e retornou ao Uruguai depois de 25 anos vivendo no exterior com um objetivo: ser presidente.

“Estava indignado com o que acontece no Uruguai, por isso decidi entrar na política. Não vejo a política como uma coisa feia, porque não carrego o peso e os vícios dos políticos tradicionais. Não quero me perpetuar em nenhum cargo. Para mim, a política é uma atividade preciosa e nobre. É por isso que decidi deixar o mundo dos negócios”, disse.

Ele se apresentou como candidato, apesar de nunca ter sido membro do Partido Nacional, e está confiante que derrotará o favorito Lacalle Pou. “Tenho minhas próprias pesquisas que dizem que vou ganhar.”

As chances de vitória dos esquerdistas da Frente Ampla esbarram no desgaste dos últimos 15 anos, no aumento da criminalidade e na estagnação econômica, que favorece o discurso populista de Sartori. “Ele nunca foi militante ou ocupou cargos públicos. Sartori rompeu todas as regras da política uruguaia”, disse o analista político Adolfo Garcé. 

Sartori recebeu a reportagem do Estado em sua casa – e QG de campanha. Sempre vestido com um impecável terno azul-marinho, combinando com uma gravata fina e camisa branca, ele cumprimenta todos com um beijo e um abraço. 

Como empresário, ele chefiou a Union Agriculture Group (UAG), que atraía investidores estrangeiros interessados no setor agropecuário do Uruguai. Ganhou dinheiro, mas perdeu ainda mais. Em 2018, a empresa fechou o ano com prejuízo de US$ 150 milhões – e ele foi afastado da direção.

Sartori é acionista da International Cannabis Corporation (ICC), cotada na Bolsa de Valores de Toronto, no Canadá, e primeira empresa a vender maconha para as farmácias uruguaias. No negócio, faturou US$ 50 milhões, mas ainda assim reclama. “Garanto que, com todos os impostos que paguei, perdi mais dinheiro do que ganhei.”

Embora não seja um político tradicional, Sartori não economiza nas promessas. Durante a campanha, afirmou que criará 100 mil empregos – um exagero para um país de 3 milhões de habitantes –, cortará impostos e reduzirá o preço da gasolina e da conta de luz, o que atrairá, segundo ele, novos investimentos para o país.

Pesquisa recente do instituto Cifra mostra que as prévias do Partido Nacional serão apertadas. Em fevereiro, Lacalle Pou liderava com folga. Ele tinha 59% das intenções de voto. Sartori, apenas 9%. No mês passado, a diferença caiu para 42% a 22%. Esta semana, diminuiu mais 8 pontos porcentuais e chegou a 36% a 26%. A esse ritmo, a vaga ainda está em aberto, dizem especialistas. 

Campanha suja 

Um dos principais colaboradores da campanha de Sartori é o venezuelano Juan José Randón, conhecido como “Rei da Magia Negra”, por sua suposta experiência na realização de campanhas sujas. Randón assessorou candidatos de Colômbia, Venezuela, México, Honduras e República Dominicana, entre outros países. Seus clientes incluem os ex-presidentes mexicano, Enrique Peña Nieto, e colombiano, Juan Manuel Santos

Quando a participação do venezuelano foi revelada, em reportagem do semanário uruguaio Búsqueda, a campanha de Sartori se apressou em dizer que Randón não havia sido contratado para realizar ataques contra seus inimigos, mas para evitar ações ofensivas contra ele.

Não há evidências de que Sartori tenha lançado uma campanha de notícias falsas, mas líderes históricos do Partido Nacional, como o deputado Jorge Gandini, disseram que, desde que Randón apareceu na cena política uruguaia, coisas estranhas começaram a acontecer. 

A maioria dos ataques são contra Lacalle Pou. Nas redes sociais, circulam fake news sugerindo que ele é culpado da morte de uma pessoa em um acidente de trânsito que nunca aconteceu. Muitos eleitores também dizem ter recebido estranhos telefonemas de pesquisadores. Antes de começar a sondagem, eles lembram que Lacalle Pou usou drogas na juventude e vive em um condomínio fechado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

'O Mercosul é uma ideia linda, mas não funciona', diz Juan Sartori

Bilionário uruguaio fala sobre sua relação com o brasileiro Jair Bolsonaro e suas ideias para 

Entrevista com

Juan Sartori, pré-candidato à presidência do Uruguai pelo Partido Nacional

Carlos Tapia Especial para o Estado / Montevidéu, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2019 | 20h30

Como o sr. se identifica ideologicamente?

Neste momento, os grandes problemas do Uruguai não são ideológicos. Ninguém pode ser a favor do desemprego ou da insegurança. Temos de ser mais pragmáticos, ver o que funciona no mundo e adotar aqui.

Mas o sr. está em um partido liberal de direita. 

Esquerda e direita não querem dizer mais nada. Em questões sociais, o governo deve tomar políticas de esquerda. Nas questões econômicas, mais de direita. As melhores sociedades, aquelas que funcionam melhor, são as abertas e socialmente tolerantes.

Qual a sua opinião sobre Bolsonaro?

Eu o conheço e, para mim, é bom ter um bom contato com outro presidente da região. Nos últimos anos, o Uruguai se isolou e isso teve consequências econômicas e políticas. Não estamos mais onde as decisões são tomadas. Esse foi um dos grandes erros da Frente Ampla. Quero um Uruguai que tenha voz. Se nos dermos bem com nossos vizinhos, poderemos ter vantagens e benefícios que vão muito além da nossa economia.

Mas o que o sr. acha de Bolsonaro?

Eu respeito muito a escolha dos brasileiros. Eles votaram nele, por isso é muito difícil comentar. Mas presidentes não precisam pensar da mesma maneira para trabalhar juntos.

Como o sr. imagina o Mercosul no seu governo?

Para mim, o Mercosul é uma ideia linda, mas não funciona. Há algumas semanas, a Argentina impôs barreiras tarifárias e prejudicou muitas indústrias uruguaias. E esse não é o espírito do bloco. Eles nos mantêm reféns, incapazes de assinar acordos com outros países. Quero tornar isso mais flexível – e Bolsonaro já disse que está indo pelo mesmo caminho. Gosto do exemplo da Suíça, que tem mais de 120 acordos comerciais bilaterais com outros países. Isso seria ideal, porque muitos acordos são bons para o Uruguai, mas não para os grandes atores regionais. Como país pequeno, temos de ter flexibilidade. 

 

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.