Kena Betancur e Mandel Ngan / AFP
Kena Betancur e Mandel Ngan / AFP

Candidatura de Michael Bloomberg à presidência esquenta debate sobre riqueza e desigualdade

Candidato está explorando o medo de que os aspirantes democratas à eleição de 2020 não estejam à altura de derrotar o presidente Donald Trump

Tory Newmyer, The Washington Post

09 de novembro de 2019 | 07h00

WASHINGTON - Michael Bloomberg está apostando em seu próprio dinheiro. Ele investe para disputar uma indicação – com financiamento próprio - à candidatura presidencial democrata num momento em que o debate intrapartidário sobre a taxação de grandes fortunas se intensifica.

O ex-prefeito de Nova York - dono de uma fortuna de US$ 52 bilhões que começou a amealhar como banqueiro de investimentos de Wall Street há mais de 50 anos – tem criticado a virada do partido para a esquerda. Sua possível entrada na corrida promete acirrar imediatamente o que já vem tomando a forma de um debate sobre desigualdade e concentração de poder corporativo.

Howard Wolfson, conselheiro de Bloomberg, escreveu em uma série de tuítes que o candidato está explorando o medo de que os aspirantes democratas à eleição de 2020 não estejam à altura de derrotar o presidente Donald Trump.

Não muito sutilmente, está  implícito que o ex-vice-presidente Joe Biden não mostrou força suficiente como moderado, enquanto os senadores Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, e Bernie Sanders, independente de Vermont, são esquerdistas demais para ganhar uma eleição.

Warren e Sanders deram as boas-vindas a Bloomberg na disputa deixando claro que pretendem usar sua riqueza contra ele.

A campanha de Warren lançou uma tabela de cálculo de impostos sobre riqueza que, após a notícia da candidatura de Bloomberg, foi acrescida de um link dedicado exclusivamente a ele.

Outros que ganharam links especiais são o fundador da Microsoft, Bill Gates, e o admininistrador de fundos hedge Leon Cooperman, ambos críticos da proposta de impostos da senadora.

Pela tabela de cálculo, Bloomberg pagará US$ 3,079 bilhões de impostos com base no acréscimo de 6% proposto por Warren sobre o ganho líquido de bilionários. O acréscimo visa a bancar os US$ 20,5 trilhões de seu plano “Medicare para todos”.  

“Não é justo que alguém, seja quem for, chegue dizendo que vai comprar a eleição”. disse Warren a Alex Burns, do The New York Times, que noticiou a intenção de Bloomberg de disputar a indicação.

Por intermédio de Burns, Faiz Shakir, gerente de campanha de Sanders, disse que, caso Bloomberg entre na corrida, enfrentará uma dura resistência. “Mais bilionários disputando mais poder político seguramente não é a mudança de que os Estados Unidos precisam”, disse Shakir por e-mail.

Bloomberg gastou mais de US$ 110 milhões apoiando candidatos democratas na eleição de meio de mandato de 2018 e prometeu gastar pelo menos mais US$ 500 milhões para derrotar Trump.

Ele deu mais de US$ 150 milhões para grupos ambientalistas, prometeu outros US$ 500 milhões para fechar todas as usinas movidas a carvão dos EUA e já gastou dezenas de milhões em campanhas por armas mais seguras.

Bloomberg também traçou uma clara distinção entre as alas de Warren e Sanders no Partido Democrata sobre política econômica. Em janeiro, pouco antes de desistir inicialmente de sua candidatura, Bloomberg disse ao Washington Post que o imposto de Warren sobre a riqueza era “provavelmente inconstitucional” e advertiu que investir seriamente nele poderia “destruir a prosperidade do país”.    

Bloomberg disse na ocasião que os democratas não deveriam se envergonhar do sistema americano.

“Quem quiser ver um sistema não capitalista, basta dar uma olhada naquele que é talvez o país mais rico do mundo, mas cujo povo está morrendo de fome. Ele se chama Venezuela”, afirmou.

Para Chris Krueger, do Cowen Washington Research Group, “é difícil visualizar o partido do imposto sobre a riqueza indicando para candidato um bilionário cujo nome é sinônimo de Wall Street”.

Krueger acrescentou: “Suspeitamos que Bloomberg vá acolher ex-republicanos, conservadores fiscais, homens brancos e afluentes – que não são exatamente o coração ideológico do Partido Democrata. São, porém, a faixa mais aterrorizada com uma vitória de Warren”, avaliou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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