ALBERTO PIZZOLI
ALBERTO PIZZOLI

Canonização é ponto polêmico da agenda do papa nos EUA

Franciscano que evangelizou indígenas na Califórnia, Junípero Serra é visto com ressalvas por tribos do oeste americano

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE

19 Setembro 2015 | 16h10

WASHINGTON - Na visita que fará aos EUA a partir de terça-feira, o papa Francisco canonizará o primeiro santo latino do país, uma decisão que jogará luz sobre a contribuição católica e hispânica na formação da identidade americana. Mas a tentativa de transformar um franciscano do século 18 num símbolo do século 21 será um dos pontos mais controvertidos da agenda do pontífice nos EUA.

O novo santo é Junípero Serra, considerado um dos fundadores do que hoje é o Estado da Califórnia e visto pelos indígenas e muitos analistas como um representante do violento passado colonial nas Américas.

O religioso chegou à então Nova Espanha no século 18 e estabeleceu 9 das 21 missões da região, entre as quais as que deram origem às cidades de San Francisco, San Diego e Santa Marta. Convertidos ao catolicismo e forçados a deixar suas tribos e se estabelecer em comunidades ao redor das missões, os índios morreram aos milhares, vítimas de epidemias e de mudanças em seu estilo de vida impostas pelos espanhóis.

O Vaticano apresenta Serra como um exemplo de evangelização, que protegeu a população nativa contra abusos. Mas o sistema de missões que o franciscano ajudou a criar teve impacto destrutivo sobre a população nativa das Américas, segundo Steven Hackel, professor de História da Universidade de Cornell e autor do livro Junípero Serra: California’s Founding Father (Junípero Serra: O Pai Fundador da Califórnia).

“Os missionários convertiam os índios e os coagiam a trabalhar na agricultura. Eles acreditavam que só o trabalho árduo poderia salvá-los”, disse Hackel ao Estado. O professor refuta as acusações de que Serra escravizou os índios e foi um genocida, mas observa que castigos corporais eram usados contra os que deixaram as missões. 

A canonização é produto de uma decisão pessoal de Francisco, que acelerou o andamento do caso no Vaticano para que estivesse concluído antes da visita aos EUA - a primeira em seus 78 anos de vida. As autoridades da Santa Sé dispensaram a comprovação de um segundo milagre atribuído à intervenção do franciscano, condição normalmente exigida para que alguém seja declarado santo.

Enquanto desagrada aos índios, a canonização ressalta o papel dos hispânicos na construção dos EUA, no momento em que o sentimento anti-imigrante impulsiona a pré-candidatura do republicano Donald Trump à presidência, observou Hackel. “A decisão confronta o sentimento anti-imigrante e diz ‘nós não somos ilegais, nós ajudamos a construir esse país’.”

Segundo ele, a canonização de Serra também é um contraponto à narrativa histórica centrada na América britânica e protestante. “Muito antes de os puritanos chegarem à Nova Inglaterra havia missionários católicos em lugares como Virgínia, Texas e Flórida.” Em sua opinião, essa é a principal motivação da decisão do Vaticano de declarar Serra um santo.

O papa fez referência ao pioneirismo dos católicos no Novo Mundo ao falar sobre o missionário franciscano em maio. “Ele inaugurou uma nova primavera de evangelização naqueles imensos territórios, que se estendem da Flórida à Califórnia, os quais haviam sido alcançados por missionários da Espanha nos 200 anos anteriores. Isso foi muito antes de os peregrinos do Mayflower chegarem à costa da América do Norte”, observou Francisco, em referência ao navio que levou protestantes ingleses em 1620 ao que hoje são os EUA.

Católico, o vice-presidente Joe Biden estará entre as milhares de pessoas que participarão da missa de quarta-feira na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição, o maior templo católico dos EUA. A cerimônia será celebrada pelo papa em espanhol, mesma língua dos 54 milhões de hispânicos que vivem no país. “A canonização ressalta o fato de que as origens dos EUA são muito mais diversas do que se supõe. É importante ter em mente que o catolicismo é um elemento importante dessa história”, disse Michael Witczak, professor assistente de Estudos Litúrgicos da Universidade Católica da América.

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