Jim Watson/AFP
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Cansaço com a pandemia ameaça novas restrições frente à variante Ômicron nos EUA

Após quase 21 meses de restrições devido à covid-19, há pouca disposição no país para medidas como os fechamentos de escolas, banimentos de reuniões em ambientes fechados e restrições a restaurantes.

Annie Linskey e Fenit Nirappil / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 05h00

WASHINGTON - O clima frio faz mais americanos ficarem em ambientes fechados. Os feriados de fim de ano ocasionam uma onda de viagens, gerando novas linhas de transmissão do coronavírus. E a variante Delta aumentou o número de hospitalizações nos Estados Unidos

Agora, somando-se às potencialmente más notícias, uma onipresente nova variante emergiu: a Ômicron.

Mas, após quase 21 meses de restrições relativas ao coronavírus, há pouca disposição no país para medidas como os fechamentos de escolas, banimentos a reuniões em ambientes fechados e restrições a restaurantes que definiram os primeiros dias da pandemia, de acordo com autoridades de saúde, que afirmam que a vontade política para impor medidas de mitigação impopulares — mas efetivas — se esvanece.

“É muito exaustivo”, afirmou Ezekiel Emanuel, médico e especialista em bioética da Universidade da Pensilvânia que integrou o conselho consultivo do presidente Joe Biden para a covid-19 durante a transição. “O público americano está exausto e tem razão para

isso — e, portanto, o tamanho do risco que as pessoas estão dispostas a assumir aumentou. As pessoas estão dispostas a correr mais riscos e aceitar mais desafios, mas não estão dispostas a aceitar mais restrições.”

Mas Emanuel sugeriu que a resistência a essas limitações, que alguns países europeus passara a impor novamente, engendra seus próprios perigos.

“Com que frequência você escuta pessoas dizendo, ‘Não aguento mais essa covid’? Bem, não aguentar mais não quer dizer que a pandemia acabou”, afirmou Emanuel.

O panorama poderia mudar à medida que os cientistas aprendam mais a respeito da variante Ômicron e sobre quanta proteção as atuais vacinas oferecem contra a cepa. Mas autoridades públicas de saúde, de funcionários da Casa Branca a líderes de condados,

têm mostrado pouca vontade de impor novamente medidas disruptivas, preferindo a opção de estimular os americanos a mudar de comportamento voluntariamente, sem ameaças punitivas.

Foco nas medidas atuais

Joe Kanter, chefe de saúde do Estado da Louisiana, está entre aqueles que, em vez de propor novas restrições, reiteram que os americanos devem se vacinar.

“Isso merece nossa atenção, mas não temos de entrar em pânico ainda”, afirmou Kanter. “A maior ferramenta que temos é aumentar os índices de vacinação, tanto em casa quanto no exterior. Se as pessoas ainda não estão totalmente vacinadas mas mas são

qualificáveis, agora é a hora de se vacinar.”

E em alguns lugares, mesmo se autoridades de saúde quisessem impor restrições não conseguiriam, pois seu poder para fazer isso foi retirado por governadores do Partido Republicano, legislaturas controladas por republicanos e supremas cortes estaduais conservadoras, que se mobilizaram para limitar sua autoridade.

O presidente fez seu primeiro comunicado formal a respeito da variante Ômicron na manhã da segunda-feira, na Casa Branca, enfatizando que a nova cepa é “motivo de preocupação, não de pânico”.

Ele estimulou os americanos a se vacinar e, se forem qualificáveis, tomar a dose de reforço, afirmando que especialistas em medicina acreditam que as vacinas contra o coronavírus fornecem “pelo menos alguma proteção contra a nova variante, e que as

doses de reforço fortalecem essa proteção significativamente”.

Biden também encorajou os americanos a usar máscaras em ambientes fechados e lugares lotados, mas afirmou que não tem expectativa de que lockdowns ou mais restrições a viagens serão necessários. “Se as pessoas estiverem vacinadas e usarem suas máscaras, não há necessidade de lockdown” afirmou ele.

O presidente disse que na terça-feira definiria uma estratégia detalhada a respeito da maneira que os EUA combaterão o vírus durante o inverno. O plano, afirmou ele, teria como foco o aumento no número de testagens e nos índices de vacinação.

No fim de semana, Biden restringiu voos de países do sul da África, em uma tentativa de diminuir a velocidade da disseminação da nova cepa de coronavírus aos EUA, apesar de autoridades de saúde já terem confirmado o primeiro caso da variante Ômicron no país.

Autoridades mais resistentes a impor lockdowns

Os mais graduados assessores de Biden foram claros recentemente — antes da Ômicron ser detectada, mas enquanto o número diário de mortes por covid era em torno de 1.000 — ao afirmar que medidas mais rígidas não eram consideradas em meio à persistente onda da variante Delta. Na semana passada, o número de hospitalizações provocadas por covid aumentou em estados como Ohio e Michigan, mesmo enquanto o índice de novos casos caía nos EUA nacionalmente.

O coordenador para resposta à covid-19 da Casa Branca, Jeff Zients, respondeu secamente ao ser questionado a respeito de lockdowns. “Não, não estamos indo nessa direção”, afirmou ele na semana passada.

Na manhã da segunda-feira, a variante Ômicron não havia sido detectada nos EUA, apesar de ter entrado em alguns países europeus. Ainda que a Ômicron possua um grande número de mutações, o que pode sugerir maior transmissibilidade, cientistas ainda

não determinaram o grau de ameaça que a variante representa.

Ao contrário dos EUA, outros países foram ágeis em impor restrições amplas sobre a população por causa da nova variante.

O Reino Unido, que apresenta um número baixo de infecções por Ômicron confirmadas, voltou a impor obrigatoriedades de uso de máscaras após ter relaxado as regras no verão. O país também exigirá de quem entre em seu território que se autoisole até obter o

resultado de um teste PCR de coronavírus obrigatório e exigirá que pessoas expostas à Ômicron façam quarentenas de 10 dias.

“Precisamos ganhar tempo para nossos cientistas entenderem exatamente com o que estamos lidando”, afirmou o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, no sábado, quando anunciou as novas medidas. As regras serão revistas em três semanas, disse ele.

Para Biden, que enfrenta baixos índices de aprovação, qualquer preocupação a respeito de ressurgimentos do coronavírus poderia prejudicar sua popularidade e uma promessa central de sua presidência, de restabelecer a normalidade em seu país.

No início do verão, antes da onda da variante Delta se abater, 89% dos americanos afirmavam pensar que a situação da pandemia de coronavírus estava melhorando, de acordo com uma pesquisa Gallup. Esse índice despencou em julho e agosto.

Mas no fim de outubro, americanos estavam recuperando algum otimismo a respeito da pandemia, e uma pesquisa Gallup constatou que 51% afirmavam que a situação estava melhorando, contra 20% em setembro.

Se houver uma grande piora nos índices da pandemia, a vontade política para medidas mais duras de mitigação terá em grande parte evaporado mesmo nas partes mais liberais do país, que foram mais abertas às restrições, afirmam especialistas.

Lori Tremmel Freeman, diretora-executiva da Associação Nacional de Autoridades Sanitárias de Condados e Municípios, afirmou que há “pouco apetite” para interdições abrangentes e que a maioria das agências locais de saúde aguardará até obter mais informações a respeito de como a Ômicron se difere da Delta antes de anunciar qualquer medida preventiva.

“A paciência de nossas comunidades está se esgotando”, afirmou Freeman. As pessoas estão cansadas. As pessoas estão exaustas por ter de lidar com isso por todo esse tempo.” Ainda assim, acrescentou ela, “Temos de permanecer fortes e diligentes — e continuar tentando levar às pessoas as informações que elas precisam para entender o risco que estão correndo”.

Restrições mais regionais

Robert Wachter, que dirige o departamento de medicina da Universidade da Califórnia, em San Francisco, afirmou que, se a Ômicron se provar tão perigosa quanto temem algumas autoridades de saúde, provavelmente haverá uma abordagem mais regional em relação a restrições, com lugares como a Califórnia e os Estados da Costa Leste restringindo as regras, enquanto Estados do Meio-Oeste e do Sul adotam uma abordagem mais branda.

“Há uma mentalidade generalizada em outras partes do país de que 'Estamos cansados disso'", afirmou Wachter. “Os políticos estão cansados disso… Acho que a situação será enfrentada regionalmente e provavelmente por persuasão política.”

No profundamente democrata Estado de Nova York, a governadora Kathy Hochul, do Partido Democrata, declarou no fim da semana passada um estado de emergência que vigorará até a metade de janeiro, para permitir que o Estado se prepare para uma elevação nos índices da pandemia comprando suprimentos adicionais e permitindo que hospitais adiem procedimentos médicos não essenciais.

Mas o cansaço é evidente também nessas regiões de predominância democrata. E alguns republicanos já estão sugerindo que a Ômicron é uma fabricação. “Eles vão tentar empurrar para cima da gente novas ‘Variantes' pelo resto das nossas vidas se não lhes dissermos onde enfiá-las”, tuitou Kari Lake, pré-candidata ao governo do Arizona pelo Partido Republicano que tem o apoio do ex-presidente Donald Trump.

Ronnie Jackson, o médico da Casa Branca que virou congressista republicano pelo Estado do Texas, também insinuou uma conspiração.

“Aí vem a VEMM — a Variante das Eleições de Meio de Mandato!”, tuitou Jackson. “Eles PRECISAM de um motivo para pressionar nacionalmente por votações pelo correio não solicitadas. Os democratas farão qualquer coisa para FRAUDAR uma eleição — mas não

permitiremos que eles façam isso!"

Algumas autoridades do Partido Republicano agiram em nome do sentimento antilockdown. Novas leis no Kansas impedem autoridades estaduais e fechar empresas e comércios, por exemplo. A legislatura de Montana proibiu as autoridades de saúde de

impor quarentenas a pessoas expostas ao coronavírus. A Dakota do Norte aprovou uma lei que impede as autoridades de saúde de impor obrigatoriedades de uso de máscaras, mesmo na hipótese de um surto ativo de tuberculose.

As supremas cortes de Michigan, Wisconsin e Kentucky limitaram o poder dos governadores democratas desses Estados de implementar medidas de emergência, como a obrigatoriedade de uso de máscaras.

Freeman afirmou que potenciais picos nos índices da pandemia causados pela Delta ou pela Ômicron colocarão em teste o efeito das novas leis.

“Precisaremos ficar muito atentos e acompanhar se qualquer legislação que tenha tentado limitar a autoridade da saúde pública tenha, na verdade, essencialmente amarrado as mãos dos chefes de saúde pública para evitar que a doença se espalhe num momento

que há uma mudança na doença, como uma nova variante”, afirmou Freeman.

No fim de semana, autoridades estaduais e locais usaram o interesse na variante Ômicron para reiterar a importância das restrições em vigor, em vez de discutir publicamente novas medidas.

O governador de Connecticut, Ned Lamont, do Partido Democrata, pediu atenção quanto à nova variante e afirmou que essa emergência acentua a urgência de vacinação e uso de máscaras em ambientes fechados. O Estado de Connecticut não obriga o uso de

máscaras, mas algumas cidades, incluindo New Haven, ainda impõem a medida.

“Essas notícias da variante Ômicron nos lembram da importância de nos vacinar e tomar a dose de reforço”, tuitou Lamont no domingo. “Entramos agora na temporada de feriados de inverno e ainda precisamos usar máscaras em ambientes públicos fechados, higienizar as mãos apropriadamente, nos testar e ficar em casa se nos sentirmos mal.”

Kanter, o diretor de saúde de Louisiana, afirmou que as prioridades imediatas do Estado para a resposta à variante Ômicron são reforçar os sistemas de vigilância genética para detectar a cepa prontamente e garantir que os laboratórios consigam trabalhar na

detecção da variante Ômicron enquanto fazem os teste rotineiros de coronavírus que estão preparados para realizar.

Ele afirmou que medidas como restaurar a obrigatoriedade do uso de máscaras em ambientes fechados, imposta pelo governador John Bel Edwards, do Partido Democrata, em reposta à elevação nos índices da pandemia ocasionada pela variante Delta no verão,

são prematuras enquanto cientistas e autoridades de saúde aguardam informações adicionais sobre a nova cepa. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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