Cantor cubano punido por pedir eleição 'recua'

Robertico Carcassés reivindicou liberdade e voto em show em rede nacional; proibido de cantar em atos do regime, músico inova ao mudar de versão

O Estado de S.Paulo - EFE e Reuters

20 de setembro de 2013 | 02h03

Há uma semana, o músico cubano Robertico Carcassés surpreendeu espectadores de seu concerto - transmitido ao vivo em cadeia nacional de TV - ao defender, sem meias palavras, eleições diretas para presidente e o direito à livre informação. Ele foi então proibido de se apresentar em eventos promovidos pelo governo indefinidamente. Depois de, segundo ele, o governo anular a sanção, o músico adotou um recuo com tom dúbio.

Durante a apresentação, transmitida direto da Tribuna Anti-Imperialista José Martí, em Havana, as palavras de Carcassés foram diretas. "Livre acesso à informação para eu ter minha própria opinião. Eleger o presidente por voto direto e não por outra via. Que se acabe o bloqueio e o autobloqueio por favor. Nem militantes nem dissidentes, todos os cubanos com os mesmos direitos", cantou o artista em ritmo de salsa na apresentação - em homenagem aos cinco cubanos condenados por espionagem nos EUA.

Na segunda-feira, Carcassés confirmou que, em razão das declarações que deu, o Ministério da Cultura de Cuba cassou sua autorização para se apresentar em espetáculos promovidos pelo governo "por tempo indeterminado". Na quarta-feira, o cantor e pianista disse que foi chamado pelas autoridades culturais do regime, que lhe comunicaram que "essa sanção seria revogada".

Na quarta-feira, em sua página no Facebook, Carcassés afirmou que houve um "mal entendido". "Quando disse que quero ter acesso livre à informação para ter minha própria opinião, estava me referindo à minha família, já que na minha família ninguém me escuta. Tenham atenção, quando disse para se eleger o presidente por voto direto e não por outra via, estava me referindo ao presidente das cooperativas agrícolas. Gritei para que se acabe o bloqueio e o autobloqueio, mas não se confundam, é o autobloqueio que tem o administrador da pracinha do meu bairro. Por favor, não me interpretem mal. É certo que cantei 'nem militantes, nem dissidentes, todos os cubanos com os mesmos direitos'. Com os mesmos direitos à saúde, ao trabalho, ao esporte e à cultura."

O compositor Silvio Rodríguez - defensor da Revolução Cubana em versos e discursos, considerado um dos músicos mais influentes da ilha - defendeu o colega. Na terça-feira, ele desafiou o governo comunista ao convidar Carcassés para dividir o palco com ele neste fim de semana.

"Como cidadão cubano, Robertico tem direito de manifestar o que pensa", declarou Rodríguez em seu blog, criticando, porém, a atitude do colega. "Parece-me um erro lamentável que ele tenha feito isso no ato por nossos heróis antiterroristas, que sacrificaram suas vidas pela segurança do povo", disse.

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