CANTOR 'NEUTRO' OFENDE A TODOS

Músico que não toma partido causa indignação

CARACAS , O Estado de S.Paulo

23 de março de 2014 | 02h03

O violonista e compositor Aquiles Báez, especialista em chorinho e MPB, é um dos raros venezuelanos que se dizem neutros diante do ambiente político ultrapolarizado de seu país. Desde o dia 16, quando se apresentou na Feira Internacional do Livro da Venezuela (Filven), em Caracas, virou alvo de insultos e críticas de chavistas e opositores.

"É muito difícil ser neutro aqui. Sou de esquerda, mas não me identifico com o projeto do governo. A oposição, por sua vez, tem sido muito radical", resumiu.

Báez foi convidado pela Embaixada do Brasil em Caracas para o show no Teatro Teresa Carreño que fez parte das programações da Filven. O Brasil era o país homenageado na feira - e o show foi uma retribuição. Os organizadores, entretanto, não quiseram aceitar a presença do músico no palco por ter ele composto a canção Los Estudiantes, em parceria com Ernesto Rangel e Willy McKey, em fevereiro. A música tornou-se um hino dos universitários em protestos e barricadas contra o governo de Nicolás Maduro, como Coração de Estudante, de Milton Nascimento, foi a canção símbolo da campanha Diretas-Já, em 1984, no Brasil.

O ministro do Turismo venezuelano, Andrés Izarra, a quem Báez considera um amigo, chegou a pedir uma mudança na letra. "Eu não me referi na canção aos estudantes violentos, mas aos que buscam um futuro melhor. Sou contra a violência e as barricadas", afirmou.

"Mudar essa letra seria a mesma coisa que pedir a Silvio Rodríguez que alterasse a Canción del Eligido", completou, referindo-se à música dedicada ao sindicalista Abel Santamaría, aliado de Fidel Castro na Revolução Cubana.

A resistência à apresentação de Báez foi contornada pela diplomacia brasileira em Caracas. O músico fez um de seus melhores espetáculos. Tocou composições de Djavan, Egberto Gismonti e Edu Lobo. No fim, ainda no teatro, foi abordado por uma estudante indignada, com uma câmera na mão, que dizia não se identificar com Los Estudiantes, que ele não chegou a tocar. Um jornalista pediu, já filmando, que agradecesse ao presidente Maduro por seu show. Surpreso, Báez disse que não o faria porque o Teresa Carreño é um teatro público e de todos os venezuelanos. "Seria o mesmo que agradecer a Dilma (Rousseff, presidente brasileira) por eu fazer um show num teatro estatal."

Nos dias seguintes, os dois polos políticos da Venezuela cravaram Báez de insultos nas redes sociais. Os oposicionistas o chamaram de vendido para o governo de Maduro, por ter aceito fazer o show na Filven, um evento anual organizado pelo Ministério da Cultura. Os governistas o acusavam de pactuar com a oposição por ter composto Los Estudiantes.

Depois de 16 anos nos EUA, Báez retornou à Venezuela em 2011 - e montou a empresa Guataca, voltada para o lançamento de novos talentos musicais. Conforme afirmou, em seu país, "há muito a ser feito na área musical, enquanto em Nova York já está tudo feito".

Desde seu retorno, porém, não tem sido convidado para eventos culturais em espaços controlados pelo governo, porque teria feito críticas à política cultural do país. No entanto, tem se apresentado com frequência no Brasil, assim como participado de seminários, oficinas e projetos. / D.C.M.

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