Money Sharma / AFP
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Caos e burocracia dificultam fuga de afegãos que ajudaram os EUA

Defensores dos refugiados acusam o Departamento de Estado americano de demora no processamento de vistos, enquanto uma multidão espera por chance de deixar o país

Lara Jakes, Annie Karni, Kenneth P. Vogel e Shashank Bengali/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 07h58

Enquanto o Taleban consolida seu controle sobre o Afeganistão, milhares de civis que ajudaram os Estados Unidos correm o risco de ficar presos no país por questões burocráticas em Washington, enquanto a confusão nos arredores do aeroporto de Cabul desafia os esforços emergenciais pra a retirada.

Autoridades americanas estão acelerando o processamento de vistos para afegãos que atuaram junto aos militares ou embaixadas dos EUA durante a intervenção que se deu a partir de 2001. Apenas no início desta sexta-feira, 20, espera-se que até 6 mil pessoas sejam retiradas do país.

Mas outros milhares estão esperando, com medo, do lado de fora dos portões do aeroporto, onde combatentes do Taleban atacaram a multidão com paus e coronhadas de espingarda.

Com a crescente impaciência interna nos EUA com a incapacidade do Departamento de Estado em processar os vistos de seus aliados mais rapidamente, o presidente Joe Biden agendou um pronunciamento para esta sexta.

Um oficial do governo descreveu os desafios enfrentados pelas pessoas que ajudaram os Estados Unidos para chegar ao aeroporto com segurança, dadas a quantidade de afegãos que tentam fugir e os postos de controle do Taleban na capital.

Desde que o Taleban voltou ao poder, o governo Biden enviou tropas e diplomatas ao Afeganistão para acelerar o que o Pentágono descreveu como uma das maiores viagens aéreas dos EUA na história.

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Na quinta-feira, o ex-embaixador no Afeganistão, John R. Bass, chegou a Cabul com um pequeno grupo de diplomatas para agilizar o processamento de vistos. Diplomatas também estão indo para Qatar e Kuwait, onde bases militares americanas servirão como estações intermediárias para refugiados e repatriados antes de irem para outro país.

“Esta é uma operação que seguirá o mais rápido possível”, disse Ned Price, porta-voz do Departamento de Estado. Ele afirmou que as autoridades americanas estão em contato com os afegãos que foram autorizados a voar, incluindo mais de 800 na noite de quarta-feira.

As forças americanas lutaram contra o Taleban por duas décadas, mas num sinal das vertiginosas mudanças em Cabul, os comandantes americanos estão agora trabalhando com os antigos rebeldes para garantir que os evacuados possam continuar a chegar ao aeroporto. Estes esforços vêm depois das cenas caóticas e de arrebatamento do coração na segunda-feira, quando civis afegãos que tentavam fugir do país lotaram a pista e subiram na fuselagem de aviões militares norte-americanos que partiam da capital.

Cerca de 5.200 militares dos EUA estão protegendo o aeroporto sob o comando do contra-almirante Peter Vasely, um ex-oficial da Marinha, que várias vezes por dia fala com um homólogo do Taleban fora do aeroporto de Cabul, disse o porta-voz do Pentágono, John F. Kirby, em entrevista coletiva na quinta-feira. 

As tropas também estão posicionadas nas entradas do aeroporto, onde auxiliam os funcionários consulares na revisão de documentos, disse ele.

Veja o mapa do Afeganistão

Até quinta-feira à tarde, os militares americanos tinham evacuado 7.000 pessoas, entre americanos, afegãos e outros, desde sábado. O esforço é bem inferior ao número de 5.000 a 9.000 passageiros por dia que os militares conseguirão retirar assim que o processo de evacuação estiver a todo o vapor, disseram as autoridades.

Biden disse que pode prorrogar o prazo de 31 de agosto que impôs à missão, se necessário. Mas oficiais dizem não ter a capacidade de ir a Cabul ou a qualquer outro lugar no Afeganistão para buscar pessoas, o que exigiria atravessar o território detido pelos taleban.

Defensores dos refugiados acusaram o Departamento de Estado de ser pego de surpresa no processamento dos vistos para afegãos, embora Biden tenha dito em abril que os militares americanos deixariam o país em setembro. 

O sistema de vistos tinha um acúmulo de 17.000 casos quando Biden assumiu o cargo em janeiro. A embaixada dos EUA em Cabul processava pelo menos 100 vistos por semana até junho, antes do ressurgimento do coronavírus no Afeganistão ter interrompido a operação.

“Há dezenas de milhares de americanos e afegãos literalmente no portão”, disse Sunil Varghese, diretor de políticas do Projeto Internacional de Assistência aos Refugiados. “Isso poderia ter sido completamente evitado se a evacuação fizesse parte da retirada militar.”

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