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Caos econômico é ameaça para Maduro em eleição

A dois meses das eleições municipais da Venezuela, tidas como um referendo de seu governo, o presidente Nicolás Maduro tenta mitigar os efeitos de uma grave crise econômica que elevou a inflação a 45% nos últimos 12 meses e fez o câmbio paralelo atingir quase sete vezes a cotação oficial. Além disso, as reservas em moeda estrangeira caíram 25% este ano e a escassez é de um em cada cinco produtos da cesta básica.

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2013 | 02h05

Para controlar os efeitos desse cenário, o herdeiro político do presidente Hugo Chávez aposta em duas frentes. Uma econômica e a outra política. No fim de setembro, o líder bolivariano foi à China, onde fechou um acordo de cooperação de US$ 5 bilhões em bens de capital, financiamento direto e investimentos em troca de petróleo. Além disso, anunciou um acordo de importação de alimentos com a vizinha Colômbia no valor de US$ 600 milhões.

Na política monetária, o Banco Central Venezuelano (BCV) anunciou uma nova venda de títulos da dívida pública no valor de US$ 100 milhões por semana (pelo câmbio oficial) para captar mais dinheiro.

Na frente política, Maduro optou pelo confronto. Denunciou uma "guerra econômica" promovida por entidades patronais e empresários, aos quais acusou de agir "no limite da responsabilidade" e ameaçou punir meios de comunicação que noticiem a escassez de alimentos, estimada em 20% pelo BCV, sob a alegação de que isso "semeia o medo entre a população".

Analistas políticos e economistas venezuelanos, de ambos os lados do espectro político, concordam que a falta de dólares está no cerne da atual crise, mas dão pesos diferentes à gravidade da situação. "Maduro quer impedir que a crise de desabastecimento torne-se um tema da campanha porque a eleição municipal se converteu num plebiscito sobre seu governo", avalia o sociólogo Luís Vicente León, do Instituto Datanálisis. "Sua margem de manobra para melhorar a economia é muito restrita e ele teria de tomar decisões difíceis que poderiam afetar a campanha."

Também sociólogo, Oscar Reyes, consultor do canal estatal TVES, concorda que a eleição tornou-se um desafio para Maduro.

Na opinião dele, uma vitória do chavismo na prefeitura de Caracas constituirá um duro golpe para a oposição. "O governo deve ganhar o maior número de prefeituras e a oposição deve se sair bem em algumas cidades maiores. Mas se Ernesto Villegas (ex-ministro da Comunicação) derrotar Antonio Ledezma (atual prefeito de Caracas) será um grande triunfo contra a oposição. O objetivo principal de Maduro é estabilizar a economia e a oposição obviamente está interessada na desestabilização."

Economia. Para assegurar a vitória de Villegas, o chavismo tenta conter o desabastecimento a todo custo. "Estão gastando os últimos cartuchos", diz o economista Boris Ackerman, da Universidade Simón Bolívar. "A Venezuela vive uma tormenta econômica de alto risco. As medidas que o governo poderia tomar contra a escassez de dólares e a inflação, como aumento dos juros e no compulsório dos bancos, corte de subsídios da gasolina e desvalorização cambial seriam impopulares."

A consultoria Ecoanalítica estima que para uma estabilização do câmbio, o dólar, hoje fixo em 6,30 bolívares, deveria valer 12 bolívares. Sites com base fora da Venezuela que monitoram o dólar paralelo cotam a moeda americana em 42 bolívares.

"Existe uma grande distorção cambial em razão da escassez de divisas que fez disparar a cotação no mercado paralelo. Como os importadores não conseguem dólares do governo porque as reservas estão em baixa, adquirem a moeda mais cara no mercado paralelo e não podem repassar o custo em razão do controle de preços imposto pelo governo", explica a economista Jessica Grisanti, da Econanalítica.

O reflexo do controle de preços é o surgimento do mercado negro e do ágio sobre esses produtos. A falta de dólares, por seu lado, resulta do aumento dos gastos públicos em 2012, quando o então presidente Chávez se reelegeu para um mandato meses antes de morrer de câncer, e do comprometimento da produção da Petróleos de Venezuela (PDVSA) com acordos com China, Cuba, países do Caribe e gasolina subsidiada, uma vez que a estatal petrolífera é a principal fonte de divisas estrangeiras da Venezuela.

Chavistas acusam os empresários de simplesmente vender os dólares no câmbio negro em vez de usá-los para comprar os produtos e estimular o medo da escassez para inflar as vendas.

"Há uma campanha que levou as pessoas a se desesperarem por bens de primeira necessidade e isso se retroalimenta. Criou-se um hábito de consumo estranho, com centenas de pessoas na fila do mercado", diz Reyes. "As pessoas vão desesperadas para comprar e estocam alimentos (um comportamento que os venezuelanos qualificam de 'compras nervosas'). No mercado negro, o preço quadruplica."

Os acordos com China e Colômbia amenizariam a situação até a eleição de novembro.

"A situação já esteve mais grave. Há desabastecimento, mas alguns produtos que faltavam já voltaram às prateleiras", diz León. O economista Ángel García Banchs, da consultoria Econométrica, destaca que além dos alimentos importados da Colômbia os produtos comprados diretamente da China via acordo comercial também suprem a demanda por bens. "Ainda não está claro nesse acordo se os US$ 5 bilhões virão em espécie, em bens de capital, ou em investimento na produção. Mas isso pode ajudar a financiar as importações para aliviar a escassez", afirma.

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