Caos econômico e heranças da ditadura prejudicam governo

Dois anos após a revolução que destituiu seu ditador, o Egito continua um Estado falido. Com base no Índice de Estados Falidos, no ano anterior à revolução estávamos em 45º lugar. Depois da queda de Mubarak, pioramos e ficamos em 31º. Não examinei esse índice recentemente - não quero ficar mais deprimido. Mas as evidências estão claras.

O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2013 | 02h13

Observamos hoje uma corrosão da autoridade do Estado. Um Estado, na sua forma mais básica, deve fornecer segurança e justiça. Mas a lei e a ordem estão se desintegrando no Egito. Em 2012, os assassinatos aumentaram 130%, os roubos 350% e os sequestros 145%, de acordo com o ministério do Interior. Você vê pessoas serem linchadas em público, enquanto outras tiram fotos da cena. E pense, este é o século 21 - não é a Revolução Francesa! O sentimento hoje é de que não existe uma autoridade de Estado para impor a lei e a ordem e assim todos acham que tudo é permitido. E isso, claro, gera muito medo e nervosismo.

Não podemos esperar que o Egito tenha uma vida econômica normal nessas circunstâncias. As pessoas estão muito preocupadas. Aqueles que têm dinheiro não estão investindo - nem egípcios e nem estrangeiros. Numa situação em que a lei e a ordem não têm consistência, as instituições não cumprem com suas obrigações, quando você não sabe o que sucederá amanhã, obviamente há um recuo. Como resultado, as reservas em divisas do Egito se esgotaram, o déficit do orçamento será de 12% este ano e a libra se desvaloriza. Cerca de 25% dos nossos jovens acordam de manhã sem trabalho. Em todas as áreas os fundamentos econômicos desapareceram.

O Egito pode declarar moratória da sua dívida externa nos próximos meses e o governo tenta desesperadamente conseguir alguma linha de crédito aqui e ali, mas não é deste modo que a economia voltará a funcionar. É necessário investimento externo, são necessárias estratégias econômicas, instituições eficientes, mão de obra qualificada.

Até agora, contudo, a visão do governo tem sido confusa e as políticas econômicas adotadas extemporâneas, sem uma mão firme no comando do Estado. O governo adotou algumas medidas de austeridade em dezembro para satisfazer algumas exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI), revogando-as em seguida. Entretanto os preços sobem vertiginosamente e a situação está cada vez mais insustentável, particularmente para a metade dos egípcios que vivem com menos de dois dólares por dia.

O Executivo não tem nenhuma noção de como governar o Egito. Sejam liberais ou da Irmandade Muçulmana, o fato é que os políticos não têm nenhuma visão ou experiência. Não sabem como diagnosticar o problema e tampouco oferecer a solução. Simplesmente não estão qualificados para governar.

A oposição há meses insiste junto ao presidente Mohamed Morsi e companhia que o Egito necessita de um governo competente e imparcial, pelo menos até a próxima eleição parlamentar. Precisamos criar uma comissão de ampla representatividade para emendar a Constituição atual do país que, todos concordam, não assegura um adequado equilíbrio dos poderes e não garante os direitos básicos e as liberdades do cidadão. E precisamos estabelecer uma parceria política entre os partidos estabelecidos, incluindo os de orientação islâmica, e a Irmandade Muçulmana, que provavelmente representa menos de 20% do país.

Infelizmente, nossas recomendações não são ouvidas.

A Irmandade vem perdendo apoio em todas as frentes porque, apesar de todos os seus slogans, não conseguiu oferecer alguma coisa substancial.

As pessoas querem ter comida na mesa, saúde, educação, e o governo não respondeu às suas expectativas. A Irmandade não tem pessoas qualificadas, que pertencem na maioria a partidos de esquerda e liberais. Precisamos formar uma grande coalizão, colocar as diferenças ideológicas de lado e trabalhar juntos para atender às necessidades básicas da população. A sharia não é alimento.

Estamos pagando o preço de muitos anos de repressão e governo ditatorial. As pessoas viviam numa zona de conforto, ou seja, não precisavam tomar decisões independentes. Neste momento, após a revolta popular, todos são livres, mas isso é muito desconfortável. É o dilema existencial entre a ânsia de ser livre e a velha muleta de ter alguém que lhe diga o que fazer. Liberdade ainda é algo novo para as pessoas.

Muitos dos desafios são consequência da antiga ditadura. A ferida ainda está aberta e muito pus precisa ser drenado. E temos de curá-la não só colocando um esparadrapo. Mas é isto que vem ocorrendo.

Continuamos nos atendo às mesmas ideias desgastadas. A revolução não teve por objetivo mudar as pessoas, mas mudar nossa mentalidade. O que observamos, contudo, é apenas uma mudança de rostos com o mesmo modo de pensar da era Mubarak - com a diferença de que agora existe também o componente religioso.

Até que ponto as coisas podem piorar? Claro que diferentes cenários se apresentam se a lei e a ordem continuarem em processo de deterioração.

Hoje as pessoas fazem afirmações que antes eram inconcebíveis: por exemplo, que gostariam que o Exército voltasse a governar para estabilizar a situação. Ou que poderíamos ter uma revolta dos pobres, tempestuosa e ameaçadora. Existem coisas piores do que a falência de um Estado e temo que o Egito está à beira do abismo. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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