Caos eleitoral italiano reflete sentimento contra a austeridade

Cenário: Gilles Lapouge

O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2013 | 02h06

A Itália está gripada e toda a Europa tosse, tem febre. E a equipe escolhida pela Itália para tirar o país da encruzilhada não é encorajadora: claro que dela faz parte um homem discreto, responsável e honesto, o chefe do Partido Democrata, Pier Luigi Bersani. Mas Bersani está cercado por dois "palhaços". Um velho, Silvio Berlusconi, com suas tintas capilares e sua vulgaridade. E um outro um pouco mais jovem, o antigo "cômico da TV", Beppe Grillo, que a partir de agora terá regimentos de deputados à sua disposição para apoiar um programa delirante.

Havia um quarto candidato. Sério. Mario Monti, o homem que há um ano conduz a Itália com mão de ferro e que impôs ao país uma austeridade violentíssima. Ele quase desapareceu nestas eleições.

O desaparecimento de Monti pode ser interpretado. Ele tem posição de destaque numa série de acontecimentos em todo o sul da Europa cujo alvo de ataque era o seu "cavalo de batalha", a austeridade, e contra a grande sacerdotisa e organizadora dessa austeridade europeia, a chanceler alemã Angela Merkel.

Há nove meses a Grécia lançou a primeira salva de tiros contra Merkel: as eleições legislativas no país viram a ascensão do partido Syriza, que nasceu à esquerda da esquerda e cujo único programa de governo é a luta contra a ortodoxia orçamentária. Na Itália, dois partidos que obtiveram no conjunto 60% dos votos, o de Silvio Berlusconi e do cômico Beppe Grillo atacaram incansavelmente a UE e a zona do euro, com Berlusconi manifestando ódio da Alemanha e da sua chefe.

O mesmo prurido toma conta dos países vizinhos. Até Portugal, tão resignado, cansado de tanta austeridade, se rebela e grita nas ruas. E os indignados, sem muito senso político e que protestam em Madri não têm muita coisa na cabeça exceto esta ideia simples: "não à austeridade".

Hoje em todo o sul da Europa formou-se uma nebulosa de países que pretendem serrar as algemas impostas por Merkel. A França, que fica à mesma distância do norte e do sul, estaria bem colocada para liderar um protesto contra a austeridade e, indiretamente, contra a Alemanha dominante. Mas há um detalhe: a situação econômica na França é aterradora: crescimento em pane, desemprego de vento em popa, dívidas sobre dívidas. Seria o mesmo que conduzir uma tropa de burros quando o cavalo em que você está montado manca das duas pernas e pode tombar no primeiro obstáculo.

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