Caos na campanha venezuelana

Em meio à crise de abastecimento, governo veta candidatos e revive disputa fronteiriça

Jim Wyss*, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2015 | 02h02

Enquanto na Venezuela se intensifica a disputa para as importantes eleições parlamentares, às vezes é difícil saber se a campanha está um caos ou se o caos faz parte da estratégia de campanha. Como as pesquisas de opinião indicam que a abalada e perseguida oposição poderá ter a melhor votação das últimas décadas no dia 6 de dezembro, o governo adotou medidas impiedosamente eficientes, mas também canhestras.

Embora oficialmente a campanha ainda não tenha começado, o chavismo enviou um claro sinal quanto à natureza da eleição ao declarar que cinco candidatos opositores não poderão concorrer. O anúncio provocou protestos e também excluiu alguns dos nomes mais importantes da oposição, como María Corina Machado, que foi a mais votada nas eleições legislativas de 2010.

Na semana passada, o combate do governo de Nicolás Maduro estendeu-se ao setor privado, ao ordenar às tropas que ocupassem um depósito de distribuição de alimentos, deixando a seus proprietários, entre eles os maiores produtores de alimentos do país, o prazo de 60 dias para abandonar o local onde surgirá um conjunto de habitações subsidiadas pelo Estado.

Num país onde a escassez de alimentos é enorme - constituindo-se talvez na maior ameaça à administração pública - a medida pareceu no mínimo ilógica. Mas para alguns a mensagem é clara: o setor privado terá de entrar na linha durante a campanha, ou enfrentará represálias. O presidente da coalizão oposicionista Mesa da Unidade Democrática (MUD), Jesús Torrealba, disse que a ação põe em risco 3 mil empregos e dificulta mais o acesso à comida. "O que Maduro está querendo fazer com essa tempestade?", perguntou Torrealba na semana passada. "Está procurando um levante social para não ter de encarar o desafio eleitoral?"

A Venezuela já tem inúmeros problemas sem a confusão provocada pelo governo. A queda dos preços do petróleo em um país em que a maior parte dos produtos é importada causou uma profunda miséria. Eduardo Piñate, que se candidatou à reeleição pelo governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), disse que os tumultos por alimentos são típicos da cartilha dos opositores. "A oposição tem como tradição transformar esses processos eleitorais numa guerra - não se contentando em colar cartazes e gritar slogans, mas uma verdadeira guerra suja, uma guerra econômica, uma guerra dos meios de comunicação dentro e fora do país", disse. "E, neste ano

O Observatório Venezuelano do Conflito Social registrou pelo menos 2.386 protestos no primeiro semestre. Destes, 969 referiram-se a questões trabalhistas, 715 ao problema da habitação e 502 à escassez de alimentos, de itens de higiene pessoal e de remédios. A oposição convocou uma manifestação para sábado para debater a escassez de alimentos.

Nem todos os problemas são internos. Nas últimas semanas, foi retomada uma disputa de fronteiras há muito latente com a Guiana. A briga remonta a 1800, mas voltou a se acender após a ExxonMobil anunciar em maio a descoberta de um enorme campo de petróleo em águas disputadas.

A Venezuela tem motivos para protestar, mas sua reação - não apenas reafirmando, mas expandindo sua reivindicação da região do Essequibo e anunciando que emitirá carteiras de identidade nacionais na área - foi considerada uma provocação. "A questão é que as concessões dadas pela Guiana à ExxonMobil e a outras companhias incluem áreas que são claramente guianenses e se encontram na frente venezuelana do Atlântico", segundo Sadio Garavini di Turno, o ex-embaixador da Venezuela na Suécia, na Guatemala e na Guiana afirmou ao Diálogo Interamericano. "O governo venezuelano, que esqueceu da disputa por quase 16 anos, agora tenta usá-la por razões eleitoreiras, a fim de desviar a atenção da sociedade do desastre socioeconômico que ele criou."

Mas a questão real é: até que ponto o caos influirá as pesquisas de intenção de voto? Uma sondagem com 1.200 eleitores em potencial, divulgada pelo Venebarómetro de Caracas na semana passada, mostra um governo em graves dificuldades. Segundo 84% dos entrevistados, o país caminha na direção errada (o pior resultado desde pelo menos 2013), pois a escassez de alimentos, a criminalidade e o alto custo de vida refletem negativamente nas pessoas. Mas a pesquisa não dá à oposição a vitória esmagadora que se poderia esperar. Segundo o Venebarómetro, 33% dos entrevistados disseram que votarão em candidatos da oposição e 21%, no PSUV.

Mas há também uma ampla parcela de eleitores que se encontra no meio dos dois extremos. Enquanto 19% disseram que não sabem em quem votarão, outros 28% afirmaram que votarão em candidatos "independentes".

Mas, na Venezuela extremamente polarizada, os partidos independentes (não associados à MUD, da oposição, ou ao PSUV, do governo) são poucos. Nesse sentido, a demanda de um terceiro partido como o salvador "não passa de uma aspiração", disse Alfredo Croes, analista político que produz a pesquisa do Venebarómetro. "Há uma frustração muito grande no país, e a oposição não está apresentando soluções, limitando-se a apontar os problemas", disse. "Não temos ninguém que possa ser considerado um líder independente; há um vazio no país, mas os vazios na política acabam se preenchendo rapidamente." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É JORNALISTA DO THE MIAMI HERALD

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