Caos na Líbia é culpa de Kadafi

Para não ser surpreendido por golpe, líder líbio enfraqueceu demais as Forças Armadas

JOSHUA , KEATING, SLATE, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2014 | 02h09

A Líbia parece correr o risco de descambar para a guerra civil com as piores manifestações de violência desde a derrubada de Muamar Kadafi. Homens armados leais ao general da reserva Khalifa Haftar invadiram o Parlamento do país em Trípoli, no domingo, e intensos tiroteios ocorreram em Benghazi durante o fim de semana. A milícia de Haftar combatia grupos islâmicos, incluindo o Ansar al-Sharia, ao qual se atribui o ataque em 11 de setembro de 2012 ao consulado americano.

O estado atual de coisas ou prenuncia um golpe militar de Haftar ou não passa de uma luta entre milícias rivais, dependendo de como se observem os fatos. Este não é o primeiro "quase golpe" que o país enfrenta nos últimos meses e Haftar não é o único ex-comandante militar mercenário no país com sua própria milícia.

Diferentemente de alguns de seus colegas ditadores, Kadafi nunca construiu um setor militar forte na Líbia. Por isso, agora que ele se foi, não há uma força militar central poderosa no país. Como disse à TV Al-Jazira Claudia Gazzini, do International Crisis Group, há um forte contraste entre a Líbia e o vizinho Egito, onde a estrutura de liderança militar permaneceu intacta e parece estar prestes a instalar um novo homem forte no poder.

"O problema é que na Líbia não se tem um segmento militar como o egípcio. Tem-se um cenário político e de segurança fragmentado, o que é uma receita para conflitos intermináveis sem resultados conclusivos."

Como escreveu Robert Haddick, do Small Wars Journal, em 2011, o Exército de Kadafi provavelmente era fraco de propósito. O dirigente líbio sempre teve mais receio de golpes e sublevações internas do que de ameaças internacionais. Para fins de segurança, ele preferiu se apoiar em instituições como a Brigada Khamis, uma "guarda pretoriana" treinada para operações especiais sob o comando de seu filho.

Combinação. Um relatório do Center for Strategic and International Studies, de 2010, descreveu o estado "militarmente absurdo" das Forças Armadas do país. "A Líbia investiu em equipamento e instalações em vez de fazê-lo num sólido potencial humano, em infraestrutura e numa base de apoio. Seus recrutas e 'voluntários' mal treinados sofreram uma derrota decisiva no Chade nas mãos de forças chadianas levemente armadas. Depois disso, suas forças declinaram em qualidade."

A análise fala ainda da compra de armas. "A compra de equipamento militar da Líbia tem sido caótica. Durante a Guerra Fria e o período anterior, a Líbia foi submetida a sanções da ONU e suas compras de armas envolveram desperdícios incríveis e gastos exagerados em equipamentos. Eles eram feitos sem a preocupação de preparar o material humano e as forças de apoio adequadas, além de não refletir um conceito claro de desenvolvimento de força ou armas combinadas. Por piores que sejam as forças militares da Líbia, nenhum país poderia ignorar o vasto arsenal acumulado de equipamentos militares, embora os laços com seus vizinhos sejam mais quentes do que no passado."

"A Líbia precisa manter parados muitos de seus aviões e mais de mil tanques. Suas outras compras de equipamento para o Exército precisam de mais pessoal que seu pequeno Exército na ativa e seus reservistas de baixa qualidade podem oferecer. A relação geral de armas por pessoa no país é militarmente absurda e a Líbia reforçou seus problemas adquirindo uma ampla diversidade de tipos de equipamentos, o que torna quase impossível criar uma base de apoio e treinamento eficazes."

O que a paranoia de Kadafi criou, basicamente, foi um país com uma força militar central desorganizada e subdesenvolvida, carregada de uma quantidade enorme de armamentos pesados. Em outras palavras, tão logo surgiu um vácuo de poder, estava a postos uma combinação perfeita para a violência e o caos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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