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Gilles Lapouge
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Caos na Líbia

Por muito tempo, o Mediterrâneo foi o esplendor do mundo, mas neste início do terceiro milênio ele é a vergonha, a miséria e o horror. Diariamente, o Mediterrâneo devora infelizes africanos que sonham chegar às margens, para eles encantadas, da Europa.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2015 | 02h01

Hoje, com alguns meses de atraso, a Europa se aterroriza ao descobrir o imenso cemitério marinho em que se transformou o Mediterrâneo. Mas o que ela pode fazer? Sua primeira obrigação é não deixar o problema apenas nas mãos da Itália. Há dois anos os outros países europeus desviam o olhar cada vez que um barco em frangalhos e carregado de imigrante clandestinos naufraga ao largo das costas italianas.

Eis aí um novo pecado da Europa. E o mais grave. Mais grave que a nulidade da sua política econômica. Cada membro da União Europeia está preocupado apenas com seu pequeno jardim. Os países bálticos, ao norte da Europa, pouco se importam com o que se passa na Sicília, pois concentram-se somente no perigo representado por seu poderoso e ávido vizinho, a Rússia. E para a França esses países bálticos...

Resultado: a Itália tem de encontrar sozinha uma solução para esses sírios, etíopes, eritreus, sudaneses que vêm morrer nas suas costas.

Mas, supondo que a Europa encontre um pouco de dignidade, o que poderá fazer? Todo o mundo sabe que o fluxo de imigrantes só poderá ser controlado se a fonte pestilenta, que é o caos instalado na Líbia, for estancada. Esse país rico em petróleo ainda ontem era um Eldorado. Mas, um belo dia, a Europa, num ato irrefletido de Sarkozy, decidiu enviar soldados para derrubar o ditador líbio que mantinha seu país em ordem, o coronel Kadafi. Aí teve início o desastre.

Hoje, Trípoli, a capital - embora a partir de agora existam duas capitais ou mais nesse país aturdido -, tornou-se, como todo o restante do país, um campo de guerra onde se enfrentam gangues, tribos, bandidos e assassinos. Cidade impenetrável, noites infinitas, silêncios rasgados pelas rajadas das metralhadoras. É nesse cenário funerário que pululam os agenciadores, bandidos que exigem fortunas - quatro mil euros por passagem - dos fugitivos africanos para amontoá-los num barco destinado ao naufrágio.

Evidentemente, os jihadistas do Estado Islâmico (EI) rapidamente sentiram esse odor de morte que emana das costas da Líbia e seus bandos tentam agora assumir o controle do tráfico. Há alguns dias havia dúvidas quanto a isto. Mas hoje temos a prova.

Um vídeo divulgado no domingo pelo EI mostrou o assassinato de 28 homens apresentados como "fiéis da igreja cristã etíope inimiga". O crime foi realizado em dois pontos da Líbia. Doze etíopes foram assassinados numa praia. Homens usando roupas cor de laranja decapitados. Um segundo grupo foi morto a tiros no deserto. Uma voz no vídeo comenta: "o sangue dos muçulmanos massacrados por sua religião tem valor, nações da cruz. Estamos agora de volta". Mencionemos, enfim, um outro problema. Na própria Itália há os que exigem que o país não dê mais assistência aos imigrantes clandestinos abandonados na costa do país. A Liga Norte, partido populista e xenófobo, afirma que, se a Europa continuar acolhendo essas hordas de refugiados, automaticamente multiplicará o número de fugitivos da África. Quanto mais socorrermos essas pessoas, maior será o seu número, afirma.

O governo de Matteo Renzi requereu aos responsáveis administrativos das províncias que acolhessem em situação de emergência os imigrantes salvos. Em seguida, a Liga Norte publicou o seguinte aviso: "Pedimos aos governadores, prefeitos e conselheiros da Liga Norte para não atenderem, de modo algum, ao pedido. A Liga está disposta a ocupar hotéis, escolas ou casernas que possam ser colocados à disposição dos chamados 'imigrantes'". / Tradução de Terezinha Martino 

* É correspondente em Paris

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