AFP PHOTO / BELGA / DIRK WAEM
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Capital europeia se transformou em capital do jihadismo

'Viveiro' de terroristas, periferia de Bruxelas tem taxa de desemprego de 40%; bairro passou a ser a capital do jihadismo europeu e centro das atividades radicais no continente

JAMIL CHADE - ENVIADO ESPECIAL / MOLENBEEK, O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2015 | 07h00

MOLENBEEK - O autor das mortes no Hypercacher em janeiro em Paris, o autor das mortes no museu judaico de Bruxelas, em maio de 2014, o cérebro dos atentados contra Madri em 2004 que deixaram 191 mortos, o autor de uma tentativa de ataque contra um trem entre a Bélgica e Paris em agosto e os responsáveis pelos ataques contra a capital francesa na semana passada. 

Um elemento liga todos esses atentados: seus militantes partiram ou foram treinados e radicalizados no bairro de Molenbeek, na periferia de Bruxelas. A poucos quilômetros dos prédios da Comissão Europeia e da capital da Europa, o bairro passou a ser a capital do jihadismo europeu e centro das atividades radicais no continente.  

Com uma população de 11 milhões de habitantes, a Bélgica tem 500 mil muçulmanos, em sua imensa maioria moderados e integrados na sociedade local. Mas é a proporção de jovens belgas que partiram para a Síria que chama a atenção. No total, 440. Segundo fontes da polícia, praticamente todos saíram de Molenbeek que, com 100 mil habitantes, passou a ser o epicentro as operações em busca de respostas para os atentados de sexta-feira. 

O bairro é praticamente um gueto muçulmano, no coração da Europa. Do outro lado do canal que marca a entrada de Bruxelas, a região foi sempre um local de migrantes. Primeiros foram os italianos, depois espanhóis e, a partir dos anos 70, o bairro passou a ser ocupado pelos marroquinos. Hoje, as lojas têm suas vitrines escritas em árabe, a língua mais ouvida por quem passa pelas ruas. 

Bebidas alcoólicas praticamente não existem nos restaurante e alguns atendentes sequer falam francês. Numa loja de véus e burcas, a presença de homens é “desaconselhada”. 

No total, o bairro conta com 22 mesquitas, a maior densidade de toda a Europa. “Aqui é como um vilarejo separado”, disse o dono de uma mercearia, que pediu para não ter o nome revelado. 

Com uma taxa de desemprego de mais de 40% entre os jovens e uma renda per capta inferior a da Romênia, o local passou o ser o símbolo da integração fracassada da imigração. Em 2012, um incidente revelou a dimensão da distância entre o bairro e as forças de ordem do país. Uma mulher foi detida pela polícia local por violar a lei de não usar burkas integrais. Mas quem foi alvo de um ataque foi justamente os policiais. Moradores saíram para enfrentar os agentes de segurança, que tiveram de fugir. 

 “A Bélgica passou a ser um viveiro do terrorismo islamista”, disse Claude Moniquet, diretor do Centro de Segurança e Inteligência Estratégica da Europa. 

Os fatos confirmam a análise, segundo fontes da inteligência. Depois do ataque de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, os assassinos do comandante Massoud no Afeganistão, chefe da luta contra o Taleban, tinham passaportes falsos da Bélgica e apoio logístico de pessoas na periferia de Bruxelas. 

Ao longo dos anos, os jihadistas ganharam o apoio de radicais bósnios que, depois da guerra na ex-Iugoslávia, se refugiaram nas periferias belgas, inclusive em Molenbeek. 

Há quatro anos, o grupo Sharia4Belgium (Sharia para a Bélgica) foi descoberto no mesmo bairro e desmantelado. Eles tinham como ambição transformar o local em um “estado islâmico”. Mas poucos foram condenados e a maioria escapou. 

Agora, é a família Abdeslam que atrai a atenção da polícia ao local. Dois dos quatro irmãos do bairro estavam entre os terroristas. Um deles, Ibrahim, morreu. Já Salah Abdeslam fugiu. 

A família inteira era conhecida, inclusive pelas autoridades. Na prefeitura, a secretária para Assuntos Sociais, Sarah Turine, confirmou ao Estado que um dos irmãos, Mohamed, trabalhou entre 2006 e 2012 na administração pública, no mesmo andar do prefeito. “Como ele falava árabe, ele servia de ponte entre o prefeito e as famílias locais”, contou. 

Abdelhamid Abaaoud, o mentor dos atentados, também nasceu no bairro. Para ela, não é apenas a pobreza que explica a radicalização. “Esses jovens se perguntam constantemente se são belgas ou não. Seus pais chegaram aqui há 40 ou 50 anos. Mas seus filhos são queixam de que são estigmatizados. As pessoas que recrutam entenderam isso rapidamente e passaram a agir com muita eficiência. É uma questão de identidade”, insistiu. 

Segundo ela, a radicalização há muito tempo já deixou de ocorrer nas mesquitas. “Elas são super controladas”, disse. “Na maioria parte das vezes, isso ocorre de forma informal e pela Internet”, explicou. 

Mas, para a classe política, parte do problema foi a gestão do local pelos últimos 20 anos do prefeito Philippe Moureaux. Molenbeek é um dos 19 municípios da Grande Bruxelas e cada um dos prefeitos espera que os problemas sejam lidados pelo vizinho. Existem ainda seis forças de polícia, além de dois governos regionais que praticamente não se falam e duas línguas que evitam se dialogar. “Houve um vácuo que foi preenchido pelos islamistas”, disse o atual ministro do Interior, Jan Jambon. “Eu vou limpar Molenbeek”, concluiu. 

Jan Gypers, vereador da cidade, também confirmou ao Estado a falha das autoridades. “A radicalização germinou por uma total ausência de intervenção durante 20 anos”, disse. 

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