Capitulação republicana

Membros do partido, que antes viam Trump como um demagogo inaceitável, começam a mudar seu discurso

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2016 | 09h27

A capitulação republicana começou. Tendo qualificado Donald Trump como um demagogo inaceitável, nada conservador e perigoso, o establishment do partido parece agora estar selando a paz com aquele que continua vencendo as eleições primárias.

O Wall Street Journal durante meses atacou Trump furiosamente em seus editoriais, tratando-o como charlatão e uma catástrofe, alertando que “se Donald Trump se tornar a voz dos conservadores, o conservadorismo implodirá com ele”. Mas esta semana, o jornal concluiu o principal editorial insistindo para os republicanos “continuarem atentos para ver se Trump conseguiria começar a agir como um presidente e, sobretudo, decidir quem pode impedir uma outra presidência da esquerda progressista”.

Karl Rove também passou meses denunciando Trump, chamando-o de “perfeito idiota”, listando seus muitos defeitos e falhas, prevendo que, se ele fosse nomeado, o Partido Republicano perderia a Casa Branca e o Senado, além de desintegrar “espetacularmente” sua maioria na Câmara. Esta semana ele também mudou de tom, oferecendo um conselho amigo e caloroso para o candidato “elevar o nível”.

Marco Rubio chamou Trump de “impostor” e o comparou aos ditadores do Terceiro Mundo. Disse que Trump “não tem nenhuma ideia com alguma substância”, “fez carreira explorando a classe trabalhadora”, procura se aproveitar do medo das pessoas e incentiva a violência em seus comícios. Mas “neste momento” afirma que vai apoiar qualquer candidato que representar o Partido Republicano. 

Deste mesmo modo se manifestaram os senadores John McCain e Paul Ryan, que, algo raro, por três vezes tentaram intervir na campanha, censurando Trump por suas ideias e retórica. Até mesmo Lindsey Graham, que considerou Trump “a pessoa mais despreparada que já conheceu para ser comandante-chefe” não dirá que não vai votar nele. Na verdade, no momento há apenas um senador republicano que prometeu não votar em Trump.

Ironicamente, agora os conservadores estão mais ou menos na mesma posição em que se encontravam os republicanos moderados em 1964, quando Barry Goldwater surgiu como potencial candidato. É difícil compreender hoje como foi dramático para os republicanos. Como documenta Geoffrey Kabaservice em seu brilhante livro Rule and Ruin (Regra e ruína, em tradução livre), o partido se orgulhava da sua posição progressista em termos de raça desde Abraham Lincoln. Goldwater, por outro lado, se opôs à decisão da Suprema Corte em 1954 de integrar as escolas na ação Brown versus Board of Education (A Suprema Corte decidiu favoravelmente à integração de uma escola na cidade de Topeka, no Estado do Kansas, abrindo um precedente para leis segregacionistas serem revogadas) e foi contra a lei de direitos civis de 1964. Cem anos de trabalho republicano nessas matérias seriam jogados fora, achavam os moderados, se Goldwater se tornasse o candidato republicano.

Trump, sob muitos aspectos, marca uma ruptura ainda maior com o passado do que Goldwater. O Partido Republicano moderno tem se consagrado ao livre comércio e os livres mercados, ao conservadorismo social, a uma política externa expansionista e à disciplina fiscal, especialmente no âmbito dos programas subvencionados do governo. Lembre que o discurso que deu impulso à carreira de Ronald Reagan foi seu ataque contra o Medicare. Em cada uma destas questões Trump ou se mostra agora abertamente contra ou, como no caso do aborto, sempre discordou.

Desde a década passada o apoio republicano à imigração e ao livre comércio vem diminuindo. Mas a nomeação de Trump transformaria o partido em um movimento nacionalista, populista e de classe média operária, com um elemento racista - como muitos outros no mundo ocidental. Seria um partido muito diferente daquele de Donald Reagan ou de Paul Ryan.

Quando frequentei a faculdade, precisei estudar em profundidade um ensaio importantíssimo sobre a política americana produzido pelo estudioso V.O. Key, sobre eleições que seriam críticas. A tese de Key era a de que a cada geração ocorre uma eleição que muda os agrupamentos de eleitores pré-existentes de tal maneira que essa mudança prevalece durante anos, mesmo décadas. Os especialistas discutem quais eleições realinharam a política americana. Muitos no geral concordam que 1932 foi uma delas, reunindo uma coalizão do New Deal de Franklin D. Roosevelt composta de liberais do Norte, minorias urbanas e brancos sulistas, para formar uma maioria democrática. Key, na verdade, considerou a de 1928 uma eleição crítica, pois ela foi um prenúncio da coalizão de 1932.

O ano de 2016 pode muito bem se tornar mais uma eleição crítica que pode convulsionar a velha ordem, mas sem criar uma nova. Neste aspecto, se assemelharia a 1964, uma eleição que também provocou um realinhamento da política, levando os brancos do sul para o Partido Republicano para sempre. Nessa ocasião também havia uma grande energia, novos eleitores e um candidato que empolgava seus partidários. Além disso, o establishment não conseguiu reunir a coragem e a unidade necessárias para se opor ao candidato favorito, com pavor de cercear a energia e a devoção das novas forças populistas.

E, assim, o partido foi para aquelas eleições de novembro dividido - e perdeu em 44 Estados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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