Capriles acusa chavistas de montar 'emboscada' e acirra tensão eleitoral

Sucessão. Chefe da campanha do principal adversário de Nicolás Maduro para a eleição que definirá o presidente da Venezuela diz ter recebido informação segura de planos contra o opositor; governo anunciou que investigará 'envenenamento' de Hugo Chávez

ROBERTO LAMEIRINHAS, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2013 | 10h59

Henri Falcón, chefe da campanha do opositor Henrique Capriles, disse ontem que o candidato não pôde comparecer pessoalmente ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE), para registrar sua candidatura a presidente, pois foi ameaçado de morte. "Havia uma emboscada preparada", disse Falcón, que foi obrigado a levar a documentação e já teria pedido ao Ministério Público da Venezuela que investigue as ameaças.

As acusações esquentaram ainda mais o clima pré-eleitoral no país. O candidato chavista, Nicolás Maduro, criticou Capriles por não ter comparecido pessoalmente ao CNE. "Se quero ser presidente, não posso enviar um emissário para fazer minha inscrição", disse Maduro, presidente encarregado da Venezuela.

A nova briga ocorre no momento em que as duas campanhas discutem o envio do corpo do presidente Hugo Chávez, morto no dia 5, para o Panteão Nacional. A Assembleia Nacional adiou ontem a votação de um pedido de reforma constitucional para permitir que ele seja levado ao monumento.

Pela lei, restos mortais de personalidades só podem ser enviados ao Panteão Nacional 25 anos após sua morte. "Levaremos nosso presidente Chávez ao Panteão Nacional. Essa é uma decisão da direção político-militar da revolução bolivariana", prometeu Maduro. A presença de Chávez no local onde estão os restos do herói da independência Simón Bolívar tornou-se um dos principais temas da campanha para a eleição de 14 de abril.

Se a Assembleia aprovar o início do processo para reformar o Parágrafo 15 do Artigo 187 da Constituição, o Legislativo encarregará o CNE de realizar um referendo em 30 dias. O chavismo vem se esforçando para que ele se realize paralelamente à eleição.

"A estratégia da oposição é a de tentar dissociar Maduro de Chávez, numa tentativa de neutralizar o clima de comoção popular causado pela morte do presidente", disse ao Estado o analista político Luís Monágas. "Associar a eleição presidencial a um referendo sobre levar ou não os restos de Chávez a um monumento nacional torna isso quase impossível, uma vez que o líder bolivariano, mesmo morto, estará presente na eleição."

"Esta é uma campanha entre o divino, o chavismo, e o terreno, a oposição. Sob esse conceito (Maduro) é o favorito", declarou o diretor do instituto Datanálisis, Luis Vicente León. "O chavismo venceu duas disputas eleitorais seguidas com dinheiro, poder, recursos e é capaz de pôr na rua uma campanha efetiva em 30 dias. Se Maduro concentrar a votação de Chávez, será favorito."

Visitado por centenas de milhares de pessoas desde o dia 6, o caixão de Chávez será fechado amanhã e levado ao Quartel da Montanha, ou Museu da Revolução, no distrito pobre de 23 de Enero. Foi deste quartel que Chávez lançou a fracassada tentativa de golpe de 4 de fevereiro de 1992. O cortejo será acompanhado pelos presidentes da Bolívia, Evo Morales, e do Equador, Rafael Correa, e voltará a reunir a multidão que tingiu Caracas de vermelho na quarta-feira, quando o corpo foi retirado do Hospital Militar.

Comissão. Maduro anunciou a criação de uma comissão de "cientistas renomados" para investigar o câncer de Chávez. Ele afirmou suspeitar que o líder tenha sido "envenenado por forças obscuras". Ele voltou a afirmar que "no momento certo" todos os detalhes sobre a saúde do presidente serão revelados.

Ainda ontem, o chanceler Elías Jaua disse que Venezuela e Colômbia seguirão unidas. Segundo ele, antes de morrer, Chávez passou-lhe várias recomendações, entre elas a aproximação com o governo colombiano.

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