Captura de chefe pode ser o início do fim dos Zetas

Prisão de Miguel Ángel Treviño Morales deve desestabilizar o grupo, mas a violência pela qual integrantes ficaram conhecidos continua a se disseminar

RANDAL C. , ARCHIBOLD & , GINGER , THOMPSON , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2013 | 02h07

Partes de corpos marcadas com a letra Z. Sessões de tortura no YouTube. Vítimas colocadas em barris e dissolvidas num "caldeirão" de morte violenta. Desde que há menos de uma década os Zetas surgiram como os novos personagens da brutalidade do crime organizado no México, o país viveu alguns dos mais chocantes episódios de violência e a carnificina propagou-se para outros países na região. Formado por ex-soldados armados e treinados para a guerra, o grupo dos Zetas não foi o pioneiro na prática de atos de extraordinária violência, mas ele aperfeiçoou a prática da matança e expandiu suas operações para além do tráfico de drogas, com a prática da extorsão, contrabando de imigrantes, sequestros e outros crimes.

Com a prisão de Miguel Ángel Treviño Morales, chefe tão temido a ponto de muitos não ousarem dizer seu nome em público, a longa e sangrenta guerra contra as drogas no México pode ter chegado a uma encruzilhada. Ninguém acredita que o tráfico permitirá que os Zetas enfraqueçam. Mas a prisão de Treviño, o assassinato do comandante anterior dos Zetas em outubro e a captura recente de vários asseclas, abalaram as organizações do tráfico que prejudicam a imagem do México e insuflam tanto medo na população.

Treviño, mais conhecido como Z-40, alcunha dada por um grupo militarista, foi capturado na madrugada de segunda-feira depois de visitar seu filho recém-nascido numa área rural perto da fronteira com o Texas. As autoridades americanas tiveram um papel importante na sua detenção e, após a prisão, confirmaram sua identidade por testes biométricos e de DNA. O desenlace aparentemente calmo da carreira do chefão contradiz a violência pela qual sua organização se destacou. Segundo analistas, os Zetas foram, sob alguns aspectos, vítimas de seu perverso sucesso.

A organização cresceu tão rápido, arrecadou tanto dinheiro e contratou tantos pistoleiros que perdeu a lealdade que outros sindicatos do crime devotavam aos seus líderes, enquanto outros cartéis estabelecidos pretendiam derrubar os Young Turks, tornando a situação penosa para todos.

Ao passo que vínculos com a comunidade e parentes unem os cartéis maiores, os Zetas, cada vez mais operado por jovens recrutas treinados na arte de matar, estavam subordinados a uma cultura de disciplina militar e a uma hierarquia que começou a fraturar com a pressão exercida pelas polícias americana e mexicana.

Existe o perigo de que a desintegração dos Zetas leve à criação de diversos grupos menores copiando suas táticas. As polícias locais e estaduais, em geral, são corruptas, mal preparadas e não se empenham em combatê-los. Mas vários analistas afirmam que a prisão de Treviño poderá ser o início do fim de um grupo que formou um grande cartel e, possivelmente, da violência em grande escala disseminada com tamanha audácia.

A pressão internacional será um fator-chave. O presidente Enrique Peña Nieto, que assumiu o governo em dezembro prometendo reduzir a violência no país, deixou claro que Treviño - acusado de tráfico de droga, assassinatos, tortura e crime organizado - era alvo principal. Mas, depois de anos de um envolvimento excessivo dos EUA nas agências de segurança mexicanas, o governo pretende que suas forças liderem o combate.

Mas os mexicanos reconhecem a necessidade de ajuda dos EUA. Os governos começaram a partilhar dados sobre Treviño há alguns meses, com os americanos informando sobre o nascimento do filho dele há pouco mais de um mês. Os americanos também disseram que ele visitava o filho recém-nascido na área de Nuevo Laredo, próximo de onde foi capturado.

As autoridades trocaram informações sigilosas obtidas a partir de conversas grampeadas e indicações de informantes. Assim os mexicanos chegaram até a picape de Treviño numa estrada remota próxima da fronteira. Marines em um helicóptero interceptaram o carro e prenderam o mafioso e dois de seus auxiliares sem dar um tiro. Oito armas e US$ 2 milhões (R$ 4,46 milhões) foram apreendidos.

Embora os rumores sobre a captura do chefão dos Zetas, incluindo uma foto da sua prisão, começassem a surgir no Twitter na manhã de segunda-feira, os americanos não haviam sido formalmente notificados da prisão.

As autoridades do México não admitiram que os EUA tenham participado da operação. Peña Nieto, na terça-feira, celebrou com os oficiais da marinha e comemorou a captura como uma coordenação eficaz entre as diversas agências - mexicanas.

Os Zetas ganharam muito dinheiro operando uma rede de contrabando de pessoas do México para os EUA, mas são também conhecidos por saquear aqueles que desejam atravessar a fronteira. Treviño teve participação na morte ou desaparecimento de pelo menos 265 migrantes, incluindo 72, muitos da América Central, mortos no nordeste do México em 2010.

O padre Pedro Pantoja, de Saltillo, que trabalha com imigrantes há 20 anos, disse que acabou de voltar da Guatemala, onde viu membros de gangues trabalhando com os Zetas e arrecadando milhares de dólares de homens e mulheres que queriam entrar nos EUA.

Não importa quem é o encarregado, disse ele, o sistema vai continuar em operação uma vez que a pobreza e a logística criminosa combinam, muitas vezes, com a violência usada como meio de manter o controle.

"O crime organizado ainda tem todo o poder, com migrantes, com sequestros e violência", afirmou. "E continuará tendo." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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