Capturado para extorquir

Segunda maior guerrilha da Colômbia obriga a agricultores a cobrar propina

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Cúcuta

31 Maio 2014 | 20h35

CÚCUTA - Vegas desertou do Exército de Libertação Nacional (ELN) graças a uma dor de barriga, seis meses após seu recrutamento forçado, em 2008. Ele e 11 guerrilheiros tinham a missão de eliminar um pecuarista que havia atrasado o pagamento da “vacuna”, nome da taxa cobrada dos campesinos por “proteção”. Quando saiu do mato, aliviado da crise intestinal, os companheiros estavam 10 minutos adiante. Colocou o AK-47 nas costas e disse “é agora que saio daqui”.

Quem narra é Marcelino “Vegas” Suárez, de 42 anos. O nome de guerra foi apagado. Não há um Vegas na escola Toledo Plata, no bairro de mesmo nome, periferia mais miserável da pobre Cúcuta, fronteira com a Venezuela. Marcelino “do mototáxi”, o piadista capaz de arrancar gargalhadas de mais de 50 colegas em uma apresentação do Dia das Mães, com poemas e cantigas, todos conhecem. 

O ELN recrutou Vegas depois de rumores de que um militar fingia ser agricultor na região. “Estava arrancando batata quando chegaram quatro pistoleiros. Expliquei que tinha ido ao Exército e saído, que só estava trabalhando. Acharam que eu era um informante”, sustenta. Levado até Walter Sandoval Jeréz, líder do ELN conhecido como “El Canoso” (O Grisalho), iniciou três meses de treino. Virou membro integral. Sua tarefa era extorquir agricultores.

Vegas caminhou quatro dias e quatro noites na fuga. Encontrou um caminhoneiro que transportava gasolina e o obrigou a levá-lo até a base militar mais próxima. Entregou arma e uniforme. 

O combustível contrabandeado da Venezuela é essencial para o ELN, segunda guerrilha da Colômbia, com 3 mil integrantes. Primeiro, para processar a cocaína, sua maior fonte de renda. Mas também pelo que pagam os caminhoneiros para percorrer estradas de terra nas quais o Estado já não se mete. 

O controle sobre a rota da gasolina dá à guerrilha lucro proporcional ao dos contrabandistas - o litro na Venezuela custa R$ 0,03 e na Colômbia, R$ 1,74. Também dá tranquilidade. “Após um combate duro, em que o Exército ataca por ar e por terra, basta ir para a Venezuela. Lá tem refúgio, comida, uniformes e armas. Tem tudo”, afirma. Na escola Toledo Plata, o único que conhece Vegas e parte de sua história é o diretor. “Os colegas não entenderiam. Acho que nem acreditariam”, diz Marcelino. / R.C.

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