Caracas admite excessos, mas trata casos de violência como fatos isolados

Caracas admite excessos, mas trata casos de violência como fatos isolados

Governo reconhece descontrole sobre suas forças em protestos contra Maduro, mas alega que repressão parte de ‘atos individuais’, ao identificar funcionário da inteligência que matou estudantes

Denise Chrispim Marin, Enviada Especial / Caracas, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2014 | 00h35

CARACAS - Num balanço dos protestos das últimas semanas, a procuradora-geral da Venezuela, Luísa Ortega, informou na sexta-feira, 28, que dos mortos nos protestos 29 eram civis, 7 eram militares e 1 era promotor público. Ela admitiu a atuação de agentes do governo em atos violentos e identificou um funcionário de inteligência que disparou contra manifestantes da oposição em 12 de fevereiro.

A procuradora, porém, ressaltou que esses episódios não representaram uma ação de repressão sistemática do governo, como denuncia a oposição. José Ramón Perdomo Camacho, de 42 anos, atirou contra manifestantes durante um ato que terminou com dois mortos. "Houve ações individuais. Vamos punir os que surjam como responsáveis por tais eventos", afirmou, com cuidado para não atribuir crimes à Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e à Polícia Nacional, as principais forças subordinadas ao governo.

O anúncio deu-se em um dia de protestos e saques em San Cristóbal, a capital no Estado de Táchira, cujo prefeito, Daniel Ceballos, foi condenado a 12 meses de prisão, sob acusação de apoiar a montagem de barricadas por estudantes contrários ao governo de Maduro.

Segundo Luísa Ortega, 559 foram feridos desde 12 de fevereiro. Desse total, 379 são civis. Dos detidos pela polícia, 168 continuam presos. Há 81 investigações abertas por suposta violação aos direitos humanos, que devem ser concluídas em três ou quatro semanas.

Dentre os agentes de segurança envolvidos na contenção dos protestos, 17 estão presos e outros três tiveram sua prisão preventiva decretada. Sete ordens de captura foram emitidas, mas não estão ainda em aplicação.

Por enquanto, a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) foi a única instituição a conversar com todos os lados do conflito. Nesta sexta, o Vaticano também se dispôs a mediar o confronto entre governo e oposição (mais informações nesta página).

Os encontros entre chanceleres da Unasul com diversos setores da oposição e do governo se deram na terça e quarta-feira. Fontes diplomáticas consultadas pelo Estado afirmaram que, nas conversas, um lado condenou o outro. Isso causou a impressão de que ambos seriam responsáveis pela violência ocorrida.

A oposição venezuelana, porém, diz que do lado do governo teria havido claro descontrole das forças militares. O ministro de Relações Exteriores, Elías Jaua, reconheceu ante seus colegas que houve problemas no governo para controlar a violência. Algum otimismo surgiu do fato de que ambos se mostraram dispostos a dialogar para pacificar o país e permitir um ambiente de normalidade no qual o governo terá como adotar medidas para corrigir o rumo da economia do país.

O vice-presidente Jorge Arreaza declarou que o Palácio de Miraflores estava empenhado em desarmar as milícias chavistas - os chamados "coletivos" - ou grupos não chavistas, insinuando a existência de elementos violentos dos dois lados.

Arreaza, genro de Hugo Chávez, presidente morto em março do ano passado, convidou os "setores descontentes" com o governo a "ganhar eleições".

O governo de Nicolás Maduro tem atribuído as manifestações da oposição a uma campanha para "preparar um golpe de Estado". Em razão disso, mandou prender no começo da semana três brigadeiros acusados de conspiração para derrubar o governo.

"O governo precisa de paz nas ruas para poder agir", afirmou um diplomata que participou da reunião da Unasul. Ao final do encontro em Caracas, o diplomata afirmou que há irritação entre os países do bloco com a cobrança da União Europeia por uma solução promovida pelo bloco. "Dá vontade de emitir uma nota cobrando da União Europeia uma solução para crise da Ucrânia", disse.

Campanha no Instagram. Desde o início da semana, circula na rede social Instagram um ensaio do fotógrafo venezuelano Daniel Bracci com 110 personalidades do país que se deixaram fotografar amordaçadas - uma referência às ações do chavismo para cercear a liberdade de expressão.

Em San Cristóbal, o confronto entre as forças de segurança e a população local estendeu-se por mais de seis horas. O choque começou quando policiais tentaram derrubar uma barricada erguida por manifestantes envolvidos em saques. Os agentes usaram bombas de gás lacrimogêneo para dispersar o grupo.

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