Caracas e Washington, mais perto

Passo inicial foi dado pelo Departamento de Estado, que telefonou para vice de Chávez em busca de cooperação

ANDRES, OPPENHEIMER, MIAMI HERALD, É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, ANDRES, OPPENHEIMER, MIAMI HERALD, É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2013 | 02h01

Análise

Embora o anúncio de que a enfermidade do presidente Hugo Chávez se agravou tenha produzido grandes manchetes, um outro fato ocorrido nesse drama venezuelano pode ter passado despercebido: conversações de alto nível entre EUA e Venezuela em preparação para um futuro sem Chávez podem já ter começado.

Segundo informações de funcionários do governo americano, Roberta S. Jacobson, encarregada do Departamento de Estado para assuntos ligados à América Latina, manteve uma longa conversa por telefone com o vice-presidente venezuelano e herdeiro designado de Chávez, Nicolás Maduro, em 21 de novembro. Na ocasião, abordaram, entre outras coisas, a possibilidade de reincorporar seus respectivos embaixadores.

A conversa, incentivada pela secretária de Estado, Hillary Clinton, foi uma iniciativa diplomática dos americanos. O gabinete de Maduro teria sido contatado para saber se o vice-presidente aceitaria conversar por telefone com Roberta. A resposta foi positiva e a conversa ocorreu logo depois.

Questionada sobre se conversou com Maduro, Roberta respondeu: "Sim. Estamos interessados em um relacionamento mais produtivo com a Venezuela. Para começar, no combate aos narcóticos, tendo em vista uma relação mais produtiva."

Detalhes a respeito do contato surgiram quando notícias de Havana, onde Chávez recentemente se submeteu a uma quarta cirurgia para retirada de um câncer, indicavam que sua recuperação era lenta. No domingo, Maduro anunciou que Chávez enfrentava "novas complicações" de saúde em decorrência de uma infecção respiratória e seu estado era delicado.

A conversa de bastidores foi primeiro informada por um colunista do jornal venezuelano El Universal, em 12 de dezembro. Depois, no dia 14, em um artigo do ex-embaixador americano Roger Noriega na revista online do American Enterprise Institute.

Noriega referiu-se à conversa entre Roberta e Maduro no fim do seu artigo e criticou "diplomatas de carreira" dos EUA por supostamente "darem legitimidade a um regime 'narco-autoritário' na Venezuela". Ele afirmou também que o secretário adjunto de Roberta, Kevin Whitaker, posteriormente conversou, em Washington, com o diplomata venezuelano Roy Chaderton. Autoridades americanas confirmaram a realização do encontro.

Em seu artigo, Noriega insistiu que o Congresso dos EUA intervenha e suspenda esses contatos, afirmando que "uma aproximação incondicional pode prejudicar os esforços para indiciar funcionários do alto escalão (da Venezuela) por crimes relacionados ao tráfico de drogas".

Sugerindo que Washington não deve reconhecer o sucessor de Chávez "até que ele prometa adotar reformas democráticas na Venezuela", Noriega acrescentou que "diplomatas de carreira podem estar desejando normalizar as relações com Caracas, mesmo que elas possam legitimar um regime não democrático e perigoso em Caracas".

De acordo com as fontes americanas, durante a conversa entre Roberta e Maduro - em que ambas as partes manifestaram a esperança de que Chávez se recupere rapidamente -, o vice-presidente venezuelano propôs o intercâmbio dos embaixadores quando o presidente Barack Obama iniciar seu segundo mandato, ainda este mês. Roberta, por sua vez, propôs uma retomada gradativa das relações bilaterais, iniciando com uma maior cooperação no combate ao narcotráfico, ao terrorismo e na cooperação energética.

Compensações. Com base na proposta americana, o primeiro teste para restaurar as relações bilaterais seria a Venezuela concordar com a visita do supervisor regional da DEA (agência antidrogas dos Estados Unidos) na Colômbia, com o objetivo de traçar um programa envolvendo uma maior cooperação venezuelana no combate às drogas. Embora na Embaixada dos EUA em Caracas haja funcionários que trabalham nesse campo, a visita propiciará maior peso diplomático às conversações bilaterais.

Na minha opinião, ambos os lados têm razões muito fortes para buscar uma distensão à medida que se preparam para a possibilidade de uma era pós-Chávez. Representantes do governo dos EUA esperam que a Venezuela permita uma maior cooperação americana no campo das drogas, do terrorismo e também no setor energético, independentemente de quem estiver no governo, de modo a impedir que o país se torne um paraíso para os traficantes.

Maduro, por outro lado, pode estar buscando tempo para consolidar sua liderança. Político radical, muito próximo da ditadura de Cuba, ele pode ter aceitado conversar com Roberta para enviar uma mensagem ao polarizado movimento chavista de que é ele quem governa, antes que uma disputa interna pelo poder venha a eclodir publicamente.

Ou então pode ter aceito a oferta americana por sugestão de Cuba, cujo governo está apavorado com a possibilidade de perder os subsídios cruciais que recebe da Venezuela caso Chávez morra. Os cubanos podem ter aconselhado Maduro a fazer uma trégua com Washington, pois a última coisa que Caracas precisa, enquanto resolve as disputas internas pelo poder em casa, é lutar com os gringos.

Democracia. Seja qual for o caso, ao contrário do que os radicais americanos afirmam, não é errado os dois países discutirem maneiras de normalizar as relações bilaterais. No entanto, considerando que as leis venezuelanas exigem novas eleições caso Chávez não possa assumir o cargo no dia 10, esperamos que o governo de Obama acrescente as palavras "processo democrático" à proposta americana para aperfeiçoar as relações com a Venezuela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.