Caracas não aceita Gaviria para mediar diálogo

A Venezuela rejeitou uma proposta dos Estados Unidos para que o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gaviria, sirva de mediador do diálogo entre o governo do presidente Hugo Chávez e a oposição.O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, apresentou a idéia durante uma sessão extraordinária da Assembléia-Geral da OEA, na noite desta quinta-feira, que ouviu o relato de Gaviria sobre o golpe de Estado que tirou Chávez do poder e o contra-golpe que o restaurou, 48 horas mais tarde.Mas o chanceler venezuelano, Luis Alfonso Dávila, rechaçou a oferta, dizendo que o diálogo entre o governo e a oposição é assunto interno de seu país. Powell renovou a exortação de Washington para que Chávez "acompanhe com atos suas promessas de reconcialiação nacional e de respeito aos princípios democráticos".O secretário de Estado repetiu o argumento da administração Bush, segundo o qual cabe ao próprio Chávez a responsabilidade pela crise que levou ao golpe. "A crise da democracia venezuelana que nos traz a esta sessão extraordinária não começou na semana passada; ela foi construída e aprofundada durante meses", disse. "A democracia venezuelana foi aleijada por ações e retórica polarizadoras."Mas, ao mesmo tempo, Powell tornou-se o primeiro membro da administração a usar a palavra "golpe" para descrever os acontecimentos e condenar os resposáveis. "Esta é a era das democracias em nosso hemisfério, não das ditaduras, (é a era) das Constituições e não dos golpes de Estado", disse ele. "Os golpes são uma coisa do passado, não um caminho para o futuro."Em contraste com seus subordinados, que, durante a crise e depois dela, hesitaram em repudiar os métodos usados pelos opositores de Chávez, o secretário de Estado inclui-os em sua crítica. "Na democracia, ninguém está acima e além do primado da lei", disse ele. "Democracias não permanecem democracias por muito tempo se os líderes usam métodos antidemocráticos. E defender a democracia recorrendo a meios antidemocráticos significa destruir a democracia."Uma resolução adotada pela OEA, durante a reunião de chanceleres, expressou "satisfação pelo restabelecimento da ordem constitucional e do governo democraticamente eleito do presidente Hugo Chávez".O documento também aconselha o governo de Caracas e "todos os setores sociais e institucionais da Venezuela a desenvolver suas atividades respeitando o estado de direito e a busca da reconciliação nacional".O embaixador do Brasil perante a OEA, Valter Pecly Moreira, destacou a pronta condenação do golpe pelos países da América Latina, por meio de um comunicado divulgado no último dia 12, e a ativação, pela primeira vez, da Carta Democrática aprovada em setembro - ironicamente, com o voto contrário da Venezuela."Demonstramos nossa maturidade institucional, e a Carta Democrática Interamericana passou com brilho pelo seu primeiro teste", disse o representante brasileiro. "Enviamos uma clara mensagem ao mundo, no sentido de que não toleraremos a deposição pela força de governos eleitos."A julgar pelo relato que Gaviria apresentou sobre sua missão de dois dias a Caracas, o repúdio da região ao golpe poderá ser submetido a novo teste. O secretário-geral da OEA informou que "parece haver uma convicção amplamente difundida (na Venezuela) de que a volta da confrontação entre os amigos e os opositores do governo é inevitável e poderia levar a crescentes protestos sociais".Gaviria advertiu os venezuelanos contra "a polarização excessiva". Ele disse que, sem um diálogo nacional e outras medidas capazes de remediar a profunda divisão no país, a crise política que fez estremecer a Venezuela na semana passada pode repetir-se. Grandes Acontecimentos InternacionaisESPECIAL VENEZUELA

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