Caracas torna-se dilema para Cuba

Ilha se equilibra entre as relações com EUA e Venezuela

NICK, MIROFF, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

12 Março 2015 | 02h03

A tentativa do presidente americano, Barack Obama, de trabalhar para normalizar as relações com Cuba, ao mesmo tempo adotando maior rigor com a Venezuela, o mais próximo aliado de Havana, vem criando uma diplomacia triangular interessante.

Na noite de segunda-feira, depois de um discurso proferido pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, atacando as novas sanções dos EUA contra integrantes e ex-integrantes de seu governo como uma tentativa para derrubá-lo, Cuba reiterou seu "apoio incondicional" ao sucessor de Hugo Chávez.

Fidel Castro, com 88 anos, entrou na discussão, como se não bastasse. "Caro Nicolás Maduro", escreveu Castro numa curta mensagem publicada pela imprensa estatal cubana, um texto conciso como uma postagem no Twitter. "Congratulo-me com seu brilhante e corajoso discurso diante dos planos brutais do governo dos EUA."

"Suas palavras entrarão para a história como prova de que a humanidade pode e saberá a verdade", escreveu o ex-presidente cubano. Foi confirmado que a mensagem de apoio foi enviada pelo Castro mais velho e não pelo seu irmão, o presidente Raúl Castro.

Raúl Castro, de 83 anos, é o único que trabalhou para uma reconciliação diplomática com Obama e deverá se encontrar com o presidente americano no próximo mês na Cúpula das Américas, no Panamá.

Fidel Castro ofereceu um apoio tépido ao degelo das relações com Washington, mas nada que possa ser considerado entusiasmo. Além disso, embora Raúl Castro também prometa regularmente apoiar o presidente venezuelano, ele não mantém uma relação pessoal tão próxima com Maduro, que, como seu predecessor, adotou Fidel Castro como mentor político.

A Venezuela ainda é o principal parceiro comercial de Cuba e à medida que Caracas substitui Havana como o principal adversário dos EUA na região, o governo Castro está entre a cruz e a espada. Havana não pode se permitir ligar seu futuro a um governo venezuelano falido financeiramente e seu inseguro presidente que carece da perspicácia política de Chávez.

Nas próximas semanas e na cúpula no Panamá, Cuba deve continuar expressando apoio à Venezuela e silenciosamente trabalhando na retomada das relações com os EUA. Será um malabarismo diplomático delicado, especialmente com os críticos da abertura para Cuba denunciando que violações de direitos humanos na Venezuela têm como base uma estratégia de segurança repressiva ditada por Havana.

Desde que a Casa Branca anunciou as novas sanções, na segunda-feira, a Venezuela, Cuba e muitos outros na região reagiram menos às medidas e mais à linguagem adotada no decreto assinado por Obama caracterizando o governo Maduro como ameaça à segurança nacional dos EUA.

Segundo as autoridades americanas, essa é a linguagem padrão usada quando sanções são impostas, mas o governo da Venezuela e seus partidários se aproveitaram da frase "ameaça à segurança" para alegar que seria o prelúdio para um ataque militar.

Depois de promover desafiadoramente um dos oficiais da segurança indicados na lista de sanções publicada pelos EUA, Maduro solicitou poderes para legislar por decreto para "combater o imperialismo". O pedido já foi aprovado em primeira votação na Assembleia Nacional.

Para os líderes da oposição na Venezuela trata-se de uma tática para Maduro se agarrar ao poder e continuar reprimindo os dissidentes.

Defesa. Quando indagada sobre a acusação de Maduro de complô dos EUA, a porta-voz do departamento de Estado americano, Jen Psaki, afirmou na terça-feira que a "intenção" do governo não é promover tumulto na Venezuela ou minar o seu governo. "Trata-se de deixar claro que não aceitamos abusos de direitos humanos ou autoridades corruptas".

O "objetivo das sanções", afirmou a porta-voz, "é convencer o governo a mudar seu comportamento".

Jen alertou que não se deve colocar o foco na linguagem usada no decreto presidencial, como ameaça à segurança e "emergência nacional", observando que esse vocabulário é padrão em decretos desse tipo. "É importante que todos compreendam que é dessa maneira que descrevemos o processo".

Desprezo. Por outro lado, as tensões na Venezuela aumentaram na terça-feira devido a um comentário feito num programa de entrevistas por Roy Chaderton, embaixador do governo Maduro na Organização dos Estados Americanos, que organiza a cúpula do Panamá.

Respondendo a uma pergunta sobre como o governo trataria as novas ameaças à segurança, Chaderton disse que, quando atiradores de elite miram as cabeças de manifestantes da oposição, um som diferente é emitido. "Porque sua cavidade craniana está vazia", disse ele com frieza, provavelmente tentando fazer uma piada.

O comentário de Chaderton se espalhou com a hashtag "ObamaYankeeGoHome" no Twitter.

As manifestações contra o governo, no ano passado, deixaram 43 mortos e algumas das vítimas foram mortas a tiros por forças de segurança - que, desde fevereiro, têm autorização oficial para usar força letal contra os manifestantes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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