FEDERICO PARRA/AFP
FEDERICO PARRA/AFP

Caracas usa tese de complô no Mercosul

Venezuela reclama de ‘conspiração de extrema direita’, composta por Brasil, Paraguai e Argentina, para impedir país de liderar o bloco

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2016 | 05h00

A Venezuela denunciou ontem a formação contra si de uma Tríplice Aliança de extrema direita, uma “Operação Condor” composta por Brasil, Paraguai e Argentina para impedi-la de chefiar o Mercosul. Caracas assumiu unilateralmente o comando do bloco no sábado, em um comunicado só levado a sério pelo Uruguai, que na sexta-feira havia deixado vago o posto, exercido semestralmente e transmitido por ordem alfabética.

 A última nota venezuelana, emitida no início da tarde de ontem, condena “as maquinações da direita extremista do sul do continente, conformada pela nova Tríplice Aliança”, na qual, à despeito da alusão histórica, inclui o Paraguai. A referência é à união militar entre Brasil, Argentina e Uruguai, na guerra que matou 300 mil paraguaios entre 1864 e 1870.

O texto assinado pela chanceler Delcy Rodríguez acusa essa aliança de “pretender reeditar uma espécie de Operação Condor (a cooperação repressiva entre os países do Cone Sul durante as ditaduras militares dos anos 70) contra a Venezuela, para criminalizar seu modelo de desenvolvimento e democracia”. 

A ideologização, a vitimização ou o possível uso da presidência do Mercosul para política interna têm sido razões mencionadas discretamente para impedir que o governo de Nicolás Maduro efetivamente ocupe o cargo. Em geral, os argumentos mais frequentes são a situação política e econômica, bem como a necessidade de adesão do país a normas exigidas dos integrantes. Ao Estado, entretanto, o chanceler paraguaio, Eladio Loizaga, afirmou que o cargo “não pode ser utilizado para promoção de uma política interna”. “Nos preocupam os comentários sobre o que a Venezuela pretende fazer em sua presidência temporária”, disse.

Ele acredita que Maduro não usaria o cargo como uma função administrativa simbólica, como costuma ser. Na segunda-feira, um processo para realizar um referendo que revogue o mandato do presidente recebeu luz verde do Poder Eleitoral do país para avançar. 

 A nota venezuelana acusa os três países de manobras jurídicas “picaretas” para bloquear sua chegada ao posto. Em entrevista ao canal Telesul, a chanceler venezuelana elogiou o Uruguai por apoiar explicitamente sua posição. Na segunda-feira, o chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, disse que Caracas está no comando. Com isso, o que era um cenário presumivelmente de acefalia deu lugar ao de uma divisão sobre quem detém a chefia. 

Para Eduardo Sadous, embaixador argentino na Venezuela durante o chavismo, tanto a acefalia quanto a divergência sobre quem preside o bloco são piores do que deixar o posto com Caracas. “É um cargo simbólico e a União Europeia tem outras prioridades, além de negociar com o Mercosul. O mais perigoso é fugir da institucionalidade”, disse ao Estado o diplomata que denunciou o funcionamento de uma embaixada paralela com desvio de fundos em Caracas durante o kirchnerismo. O economista e consultor Alfredo Gutiérrez Girault é mais pessimista sobre uma possível chegada dos venezuelanos ao posto. “Qualquer situação é complicada quando há negociações com a UE.”

 Embaixador argentino em Brasília entre 2003 e 2010, Juan Pablo Lohlé aposta que os dois maiores sócios acabarão resolvendo o impasse. “Até agora tínhamos um problema, a Venezuela. Agora temos dois. O Uruguai adotou uma posição jurídica que se sobrepõe à política, motivado por uma crise interna. O resultado é que o bloco está em risco.”

Brasil. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, José Serra, defendeu na terça-feira 2 a formação de uma comissão de embaixadores dos países-membros do Mercosul para presidir o bloco até o fim do ano em substituição ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que reivindicou o posto após o Uruguai deixar o cargo na última sexta-feira.

 "Nós achamos razoável que se faça uma comissão de embaixadores que representam os países do Mercosul para informalmente dirigir o bloco até o fim do ano, quando então deverá assumir a presidência rotativa, o presidente da argentina (Maurício) Macri", afirmou.  Em seguida, segundo Serra, a presidencia do bloco passaria para o Brasil.

"O Mercosul é uma zona de livre comércio de integração econômica. Nós temos que ficar pensando agora ativar as economias, exportar mais, melhorar o intercâmbio, melhorar o emprego. Não podemos ficar presos a situações absurdas de um país que não é uma democracia. Democracia não tem preso político", criticou.

 

Para o chanceler brasileiro, a Venezuela não tem condições de presidir o bloco. "Um país que está imerso em grandes dificuldades. Não dá para desviar atenção de aspectos tão importantes da integração econômica em função da dinâmica dos problemas de um governo autoritário na Venezuela." 

Serra afirmou que vem conversando com os demais membros do bloco sobre o assunto, por telefone ou pessoalmente. "Nessa semana que passou, estive em Lima, conversei bastante com o chanceler uruguaio. Conversamos com a chanceler argentina por telefone. Temos intensificado os contatos. Nós queremos é botar o Mercosul para frente, não paralisar, para trás, para o lado." /Colaborou Gustavo Aguiar e Beatriz Bulla, Brasília 

 

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