Francisco Guasco/EFE
Francisco Guasco/EFE

Caravana roda o México atrás de desaparecidos

País tem mais de 60 mil pessoas que sumiram sem deixar pistas; famílias percorrem prisões e até manicômios em busca de parentes

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 06h00

GUADALAJARA, MÉXICO - Diante da passividade das autoridades e da Justiça, pelo menos 80 famílias mexicanas organizaram uma caravana e estão percorrendo vários Estados do México atrás de pessoas desaparecidas. Os integrantes passam seus dias visitando prisões, hospitais, abrigos e centros psiquiátricos em busca de uma pista, uma informação, uma imagem que os ajude a encontrar filhos, irmãos e maridos. 

O governo do México estima que haja 61.637 pessoas desaparecidas no país, que enfrenta grande criminalidade dos cartéis de drogas e dos traficantes de pessoas que tentam cruzar a fronteira para os EUA. 

A caravana está atualmente no Estado de Jalisco, no noroeste do país, onde deve permanecer até o dia 22. Seus membros levam fotografias daqueles que foram tirados de suas vidas. As imagens são mostradas para médicos, presos, pacientes e funcionários públicos. Eles andam entre os doentes em hospitais esperando que alguém reconheça seus parentes e digam que os viram. 

Ruth Gumercindo viajou de Tamaulipas, norte do país, para procurar seu filho Marco Antonio, que foi sequestrado em 2008. Na quarta-feira, ela teve a ilusão de que o encontraria: na prisão de Puente Grande, duas pessoas reconheceram a foto do seu filho e lhe deram uma pista de onde ele poderia estar. 

Apesar da euforia inicial, ela sabe que essas informações podem não ser verdadeiras, como ocorreu em outras ocasiões. A esperança tende a desaparecer rapidamente. “Não tenho certeza de que ele está vivo, tenho de permanecer com os pés no chão. Meu filho foi levado por um grupo criminoso, mas mantenho minha fé. Quero encontrá-lo e vou encontrá-lo.” 

Como muitos membros da caravana, ela faz um esforço diário de juntar pontos, procurar dados, nomes, fatos, em um trabalho de investigação que é de responsabilidade das polícias estadual e federal. “As autoridades não ouvem, fazem seu trabalho no escritório, nunca me trataram mal, mas não investigam, não têm trabalho de campo”, afirmou Ruth. 

Busca

Maria da Luz López é a coordenadora da caravana, que começou há seis anos com o objetivo de encontrar sua filha Irma Clarivel, que desapareceu em 2008. Lucy, como muitos de seus amigos a conhecem, começou sua busca em sepulturas clandestinas, nas colinas de Coahuila, mas a frustração de ver os poucos avanços a levou a investigar em outro lugar e a convencer-se de que Clarivel pode voltar. 

“Deixei meu emprego porque fiquei com raiva, porque não houve resultado. Já pensei que minha filha estivesse me esperando e, talvez, ela estivesse na prisão ou em um manicômio”, disse. Ela considerou que a passagem a Jalisco já está sendo bem-sucedida, pois, nos três primeiros dias, conseguiu encontrar dados sobre 17 pessoas desaparecidas, incluindo sua filha, no Instituto de Saúde Mental e na prisão de Puente Grande, apesar de não ter obtido acesso a todos os presos. 

Ao cair da noite, os membros da caravana fazem uma reunião, contam o seu dia, avaliam as informações, os pontos positivos, as pistas que podem apresentar aos promotores de Justiça em seus Estados para que haja uma nova linha de investigação. Eles se consolam, se aconselham. 

Beatriz Torres viajou de Veracruz para procurar Manuel, seu filho que desapareceu em 2016. Ela afirmou que agora não está apenas procurando por ele, mas também pelos parentes de todos que a ajudaram. “Se não é Manuel, é outro tesouro que falta a outra família. Procurando por eles é como nos reunimos. Para mim, as caravanas nos fortalecem. /EFE

 

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