Cardeais discutem igreja do futuro

Achar que o consistório convocado por João Paulo II é um ensaio para o conclave que, só Deus sabe quando, vai escolher seu sucessor é pura especulação. Mas ninguém precisa ser profeta para imaginar que entre os 155 cardeais participantes da reunião encontra-se o futuro papa."Mas não se fala disso", informou nesta terça-feira à Agência Estado o cardeal d. Lucas Moreira Neves, um dos oito brasileiros que participam da reunião. "Estamos discutindo temas que preparam a Igreja para o futuro", acrescentou o ex-prefeito da Sagrada Congregação para os Bispos, que continua morando em Roma, depois de haver renunciado ao cargo, por motivo de saúde. Entre as questões levantadas, d. Lucas citou a educação sexual, o diálogo ecumênico e inter-religioso, e as relações da Cúria Romana com as dioceses.Segundo ele, 89 cardeais falaram em plenário - dez a menos do que o número de inscritos, porque não houve tempo suficiente para todos. João Paulo II assistiu a todas as intervenções dos dois primeiros dias, mas não acompanhará as reuniões de amanhã, porque a quarta-feira é reservada para audiências públicas no Vaticano. "O último dia será para discussões em grupos lingüísticos, nos quais deverá haver mais espaço para tratar de temas que não puderam ser discutidos por falta de tempo", disse d. Lucas. Além dos oito brasileiros, a língua portuguesa reunirá dois cardeais de Portugal, um de Angola e um de Moçambique. Do total de 183 membros do Colégio Cardinalício, 134 são eleitores. São aqueles que ainda não completaram 80 anos, idade limite para se ter direito a voto. Os outros 49 não votam, mas podem ser votados. Ou seja: mesmo não participando do conclave, o arcebispo do Rio de Janeiro, d. Eugênio de Araújo Sales poderia ser escolhido para ser o 264º sucessor de S. Pedro. Apesar de doente, d. Lucas costuma aparecer na lista dos "papáveis", os cardeais mais cotados para a sucessão. Quando se fala nisso, ele sorri e muda de assunto. "É natural que, estando o papa com a saúde de um homem de 81 anos, os cardeais aproveitem o consistório para se conhecerem melhor", disse o bispo de Blumenau (SC), d. Angélico Sândalo Bernardino, em Brasília, onde participava nesta segunda-feira da reunião do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Embora contatos pessoais possam facilitar a ação do Espírito Santo no próximo conclave, não é para isso que os cardeais estão reunidos. Conselheiros do papa, eles estão em Roma para debaterem, a portas fechadas, os desafios do mundo e o futuro da Igreja. Esse tipo de reunião, observa d. Angélico, é excelente oportunidade para a Cúria Romana saber o que acontece, por exemplo, na África e na América Latina."É preciso ouvir, cada vez mais, as conferências episcopais pela voz de seus presidentes", afirma o bispo de Blumenau, ecoando entrevista que o cardeal-arcebispo de Aparecida (SP), d. Aloísio Lorscheider, deu ao jornal francês La Croix, na véspera da abertura do conclave. D. Aloísio disse também que o papa é prisioneiro da burocacia da Cúria Romana, que o isola da base - declaração que outros bispos preferem não comentar, por mais que concordem com ela. O secretário-geral da CNBB, d. Raymundo Damasceno Assis, reforça a necessidade de o Vaticano dar mais espaço às conferências episcopais, "que são instrumento e forma para o exercício da colegialidade", isto é, para reflexões e decisões conjuntas dos bispos em união com o papa. "Embora sirva para os cardeais se conhecerem melhor, o consistório é principalmente uma oportunidade para a Igreja discutir sua missão evangelizadora e problemas como a pobreza, a miséria e a exclusão, reafirmando seu compromisso com os pobres." A reunião deve debater também o primado do papa, para definir melhor como o sucessor de São Pedro pode ser o primeiro entre os demais bispos, sem prejuízo da comunhão e da unidade. "Foi o próprio papa quem sugeriu esse tema, ao tratar dele na encíclica Ut unum sint (Que sejam um)", lembra d. Damasceno. A discussão inclui as relações com outras igrejas como, por exemplo, as ortodoxas e as protestantes tradicionais.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.