REPRODUCAO
REPRODUCAO

Cardozo leva a Dilma caso de cientista argelino

Adlène Hicheur, que trabalha atualmente na UFRJ, foi condenado na França, em 2012, por ligação com o terrorismo e cumpriu pena

Luísa Martins e Gustavo Aguiar - BRASÍLIA; Fábio Grellet - RIO, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2016 | 02h00

O ministro da Justiça brasileiro, José Eduardo Cardozo, afirmou ontem ter conversado com a presidente Dilma Rousseff e com o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, ontem, sobre a situação do pesquisador franco-argelino Adlène Hicheur, que trabalha na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e cumpriu pena na França por indícios de ligação com o terror. 

“Essa é uma questão que está sendo neste momento estudada. Nós estamos estudando juridicamente o que é cabível ser feito. O processo está em sigilo, e, portanto, não vou tecer maiores considerações”, afirmou Cardozo. O assunto também teria sido discutido com o Itamaraty, que informou “acompanhar o caso mencionado, no que diz respeito a sua dimensão externa”.

 Hicheur obteve o visto que permite a ele trabalhar no país legalmente, uma vez que cumpriu a maior parte da pena a que foi sentenciado na França (mais informações nesta página). O caso foi revelado nesta semana pela revista Época. A lei brasileira só permitiria a cassação dessa permissão em dois casos: via Estatuto do Estrangeiro – uma vez que o visto é uma “mera expectativa de direito, podendo a entrada, a estada ou o registro do estrangeiro ser obstado”, a critério do Ministério da Justiça – ou pela quebra, pela UFRJ, do contrato de trabalho com o professor. 

Hicheur desenvolvia até 2009 uma carreira acadêmica reconhecida internacionalmente. Fazia pós-doutorado na Suíça e trabalhava no Centro Europeu para Física de Partículas quando se afastou para tratamento médico. Na casa dos pais, na França, passou a frequentar um fórum de internet que reúne jihadistas e trocou mensagens com uma pessoa que se identificava como “Phenix Shadow” – segundo a polícia, era Mustapha Debchi, tido pelo governo da França como membro da Al-Qaeda. 

Templo. Discreto e praticamente sem vida social desde que chegou ao Rio, em 2013, o físico criou um hábito: frequentar toda sexta-feira a Mesquita da Luz, o único templo muçulmano da capital fluminense, em Vila Isabel, na zona norte. 

“Ele vinha toda semana, às sextas e às vezes aos sábados também”, conta Mohamed Abdien, presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, nome oficial da mesquita. “Há umas três semanas Adlène não aparece”, disse Abdien.

Adlène mora na Tijuca, perto da mesquita, e se ocupa rotina basicamente com o trabalho. “Ele é hiperativo, uma usina de ideias”, descreve Ignácio Bediaga, professor e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), órgão subordinado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação situado na Urca (zona sul). 

Bediaga lidera no Brasil o projeto internacional de física ligado ao Cern (sigla em francês que identifica a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, sediada na Suíça). Foi dele a iniciativa de convidar o franco-argelino para trabalhar no Rio.

“Adlène havia saído da prisão e não queria ficar na Europa. Os chefes da Cern me sugeriram convidá-lo a trabalhar no Brasil”, disse Bediaga, que conhecia a situação de Adlène. 

“Sabia da acusação contra ele, por isso, tomei todas as precauções. O presidente do CBPF chegou a consultar um embaixador para saber se poderíamos trazer Adlène para o Brasil, e fomos autorizados. A entrada dele no Brasil foi absolutamente regular, não houve nenhum artifício, tudo foi feito absolutamente dentro da lei”, disse.

Bediaga firmou acordo com o físico para um período de adaptação. “Ele veio primeiro para ficar três meses, com uma bolsa de estudos, e foi muito bem sucedido. Adaptou-se ao Brasil, gostou daqui e fez um trabalho de pesquisa brilhante.” O estudo resultou em uma descoberta científica (a assimetria entre matéria e antimatéria envolvendo prótons) e um artigo publicado em revista americana.

Após os três meses, o físico voltou à Suíça, onde apresentou o trabalho feito no Brasil. “Ele não queria permanecer lá, e havia se saído muito bem no Brasil. Por isso o convidamos pra ficar no País, ampliando a pesquisa inicial”, disse Bediaga. 

Durante a passagem, Adlène foi informado da decisão do governo da Suíça de que seria proibido de entrar no país até 2018. “A decisão foi com base na condenação dele na França, mas o caso já havia sido analisado pelo Ministério Público suíço e os promotores nem quiseram denunciá-lo. Consideraram que não havia provas e arquivaram o caso.”

Mais conteúdo sobre:
Adlène Hicheur terrorismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.