Caricatura de Obama como terrorista agita campanha

Ilustração do candidato e sua mulher na ?New Yorker? causa indignação entre os democratas e reacende polêmica sobre radicalismo do senador

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

15 de julho de 2008 | 00h00

A capa da revista New Yorker desta semana mostra o candidato democrata Barack Obama e sua mulher, Michelle, vestidos de terroristas muçulmanos no Salão Oval. A ilustração revoltou a campanha democrata. Nela, Obama aparece vestido de árabe, enquanto Michelle usa um cabelo black power e um fuzil AK-47 no ombro. Na lareira, uma bandeira americana é queimada sob uma foto de Osama bin Laden. Segundo a revista, o objetivo da ilustração era fazer uma sátira sobre os boatos que a direita espalha sobre Obama. "A capa satiriza as táticas do medo e desinformação usadas na eleição para desestabilizar a campanha de Barack Obama", dizia um comunicado da direção da revista à imprensa. A campanha de Obama, porém, não achou a menor graça. Bill Burton, porta-voz do democrata, disse que a caricatura era "ofensiva" e de "mau gosto". "A New Yorker pode até achar que essa capa é uma crítica humorística, mas a maioria dos leitores vai encará-la como uma coisa ofensiva e de mau gosto."A revista se dirige a um público sofisticado, que certamente entenderá a piada. Além disso, a New Yorker é uma publicação de esquerda, que apóia Obama. O medo dos democratas, porém, é da repercussão negativa nos rincões do país, onde a sátira pode ser interpretada como verdadeira. Os estrategistas democratas também temem que a imagem seja massificada pela internet. A capa é uma compilação dos boatos sobre Obama e Michelle: o de que ele é muçulmano, não é patriota, e o de que ela é uma revolucionária raivosa."A idéia de rotular Obama como antipatriótico e terrorista é absurda. Achei que ao retratar essa idéia mostraria o quão ridículos são esses boatos", disse Barry Blitt, ilustrador, responsável por várias capas polêmicas da New Yorker. Ano passado, uma de suas capas trouxe o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, sendo sexualmente assediado em um banheiro público - ela saiu depois que Ahmadinejad declarou, em visita a Nova York, que não existiam gays no Irã.Os principais blogs de esquerda condenaram a revista. "Talvez valha a pena cancelar a assinatura", disse o Daily Kos. A campanha do republicano John McCain também condenou a imagem. "Concordamos com a campanha de Obama. Foi de mau gosto e ofensivo." Alguns comentaristas, no entanto, acham que houve um exagero. Para eles, estaria havendo um patrulhamento das críticas ao democrata, imediatamente confundidas com racismo."A capa está dentro dos limites do jornalismo", disse Clarence Page, colunista negro do jornal Chicago Tribune. Outro comentarista negro, Shelley Wynter, também não viu nada demais. "Como é que vamos fazer uma sátira politicamente correta?", ironizou. Em entrevista ao site The Huffington Post, o editor da New Yorker, David Remnick, defendeu a idéia. "Já publicamos muitas capas satíricas. É só perguntar ao governo Bush quantas foram."

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