Carisma da rainha-mãe ajudou a preservar monarquia

Para as gerações bem mais jovens, o que hoje inclui uma multidão de cinqüentões, a "rainha-mãe", nascida Lady Elizabeth Angela Marguerite Bowes-Lyon, era a "vovozinha favorita da nação".Seu sorriso permanente, os vestidos austeros em chiffon, os eternos chapéus com flores e penas, a simpatia imediata com os súditos, a infatigável presença em compromissos nos quais a realeza deveria estar bem representada - tudo isso ajudou Lady Elizabeth, a mais nova das nove filhas do 14º barão de Strathmore, a conseguir, ao longo de pelo menos 70 de seus 101 anos, o milagre de construir para si, na agitada vida da monarquia britânica, um espaço próprio, extremamente pessoal.Ela não desapareceu no anonimato tão comum a mães ou esposas de figuras importantes. Não tentou roubar a cena da filha, hoje às vésperas de completar meio século no trono britânico. "Aos 100 anos, ela parecia nunca se cansar", disse a seu respeito o ilustre neto, príncipe Charles.Na introdução de um livro que comemorava seus 78 anos (em 1979), o mesmo Charles escrevia: "Desde que me tomo por gente, minha avó foi o mais maravilhoso exemplo de alegria, riso, calor humano, segurança incrível e, acima de tudo, um gosto refinado."Foram sete décadas de utilíssimos serviços à Coroa britânica, com um estilo simples, sem afetação, que ajudou a levar a velha monarquia mais para perto do povo. Com sua estatura pequena, ela conquistou respeito e afeição nos papéis de jovem duquesa, rainha-consorte e, depois, como "vovó mais querida" dos britânicos.Seus últimos anos, no entanto, foram conturbados por crises e dúvidas sobre o futuro da casa que ajudou a criar em seus 16 anos como rainha-consorte do rei George VI - e que levou adiante mais tarde, quando sua filha se tornou a rainha Elizabeth II. Depois de viver, no mês passado, a tristeza de ver sua filha mais jovem, a princesa Margaret, morrer, aos 71 anos, sua saúde tornou-se frágil.Guardiã de valores moraisMas a imagem que fica da rainha-mãe é a de uma guardiã dos valores morais da realeza, que ajudou a fazer da moderna monarquia constitucional um símbolo da vida familiar, em períodos de crises e transições. Ao contrário de outras figuras da família, às vezes admiradas ou detestadas, ela se manteve sempre como uma personalidade respeitada e popular.Uma de suas grandes missões foi incutir na filha Elizabeth um forte senso de dever, capacitando-a a enfrentar os desafios da função. Ajudou-a a atravessar aqueles difíceis tempos de crescente irreverência social em relação à autoridade.Em 1923, ainda uma aristocrata escocesa, ela se casou com o então duque de York (e futuro rei George VI), a quem tinha sido apresentada aos 5 anos de idade, em uma festinha (ele tinha 10). Alegre, bem-humorada, introduziu nos sisudos rituais da realeza uma espontaneidade que parecia ausente de outras casas reais européias.Inesperadamente reiAssim que seu marido inesperadamente se tornou rei - com a abdicação de Eduardo VIII, que trocou o trono por uma mulher plebéia e desquitada, a americana Wallis Simpson -, foi ela quem manteve a família unida, trabalhando duramente para preservar-lhe a reputação e popularidade, quando a velha ordem e as barreiras de classe pareciam desmoronar.Tempos difíceis aqueles, em que ela não escondeu seu ódio por Wallis. Foi Wallis quem, ao arrastar Eduardo VIII para fora de Buckingham, obrigou seu marido, de uma timidez colossal e sem nenhuma vocação, a sentar-se no trono britânico, para o qual não estava preparado.Ainda assim, ela o ajudou a superar os primeiros anos de poder. A bem-sucedida parceria entre os dois tornou-se, na época, um exemplo vivo dos valores familiares dominantes nos anos 50.Cavalos e um copinho de gimEla adorava corridas de cavalo e um bom copinho de gim. Criava, assim, um forte contraste com o porte severo da rainha Vitória e de seus sucessores imediatos. Quando a imagem da "família feliz" ficou em pedaços, com a separação de Charles e Diana, em 1992, muita gente achou que os gloriosos dias da popular "mãezinha" estavam acabados.Não, não estavam. Ela seria sempre a sólida figura que desafiou as bombas alemãs, permanecendo em Londres durante o bombardeio aéreo nazista.Assim que uma bomba caiu sobre o Palácio Buckingham, em 1940, atribuíram-lhe um comentário: "Gostei de termos sido bombardeados. Vai dar pra ver daqui o East End (uma região pobre onde ficam as docas do porto de Londres)."Algumas autoridades propunham, na época, que suas filhas, Elizabeth e Margaret, fossem para o Canadá. A resposta dela, firme e definitiva, foi: "As meninas não irão a lugar nenhum sem mim. Eu não abandonarei o rei. E o rei nunca irá."

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