Carla pode surpreender no palácio

Inteligente, poliglota, conhecedora de literatura, música e arte, namorada de Sarkozy tem tudo para desbancar críticos

Guy Trebay, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Perdição dos homens, destruidora de corações em série, acompanhante de roqueiro, figurante fotogênica, herdeira arrogante, armação para pesquisas de popularidade. Carla Bruni, a mulher que deve se tornar primeira-dama da França, tem sido chamada de muitas coisas ultimamente. A última coisa que alguém imaginaria é que ela é um bom partido.Mal se passaram três meses de seu divórcio de Cécilia e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, virou protagonista de um romance tão comentado que até a nobre imprensa francesa faz fofoca sobre o caso no mesmo linguajar dos tablóides: ''''Vejam os amantes passeando nas pirâmides e na Eurodisney! Acompanhem os sauditas lutando com os modos liberais dos franceses! Os funcionários indianos conseguirão inventar um protocolo para acomodar uma primeira-companheira-de-cama? O público francês aceitará uma mulher que pratica a poliandria, tem um filho com um filósofo que, por sua vez, é filho de um homem com quem ela havia namorado, e esteve romanticamente ligada a Eric Clapton e Mick Jagger? Um namoro e um casamento em tempo recorde vão reerguer os índices de aprovação de Sarkozy?''''Como a profissão de modelo freqüentemente é associada a incapacidade mental, poucos pararam para pensar que, em termos puramente curriculares, Carla pode estar mais preparada do que muita gente para uma temporada no Palácio do Eliseu. Para começar, ela é filha de Maria Borrini, uma pianista concertista, e enteada de um magnata dos pneus e compositor clássico italiano, Alberto Bruni Tedeschi. Ela é rica e estudada (sua família se mudou para a França nos anos 70 a fim de escapar de uma onda de seqüestros na Itália) e fala três línguas.SUCESSO COMO CANTORADepois de encerrar, por causa da idade, a carreira como uma das modelos mais bem pagas dos anos 90, com campanhas para Dior e Chanel e cerca de 250 capas de revista, ela virou cantora - uma transição menos surpreendente quando se pensa em sua herança e suas antigas relações. Seu primeiro álbum com canções sentimentais acompanhadas principalmente por um violão foi lançado em 2003 e foi um grande sucesso.Quelqu''''un m''''a dit (Alguém me disse) vendeu mais de 1 milhão de cópias na França, outras 300 mil no exterior e, em 2004, rendeu a Carla o equivalente francês do Grammy de melhor cantora. O fato de ela ter tido sucesso com o segundo álbum, No Promises, também foi uma façanha, disse Joe Levy, o recém-nomeado editor da revista Blender. ''''É pretensioso e sensual ao mesmo tempo'''', disse Levy, acrescentando, retoricamente: ''''Será totalmente adequado uma mulher que encarna essas virtudes casar-se com o presidente da França?''''Evidentemente, muitas pessoas não pensam assim, embora os sentimentos da ex-mulher de Sarkozy devam ser deixados para a imaginação. Em várias biografias recém-lançadas, ela ataca o ex-marido como um sovina instável, mas não se dignou a comentar sobre sua sucessora. Carla, porém, pode se mostrar adequada ao antigo papel de Cécilia. Ela também não é nenhuma incompetente numa briga de gatas.Três meses depois de encontrar o presidente num jantar, a mulher que disse a uma revista que era mesmo ''''uma gata'''' e uma domadora de homens foi vista usando um anel de noivado de diamante cor-de-rosa (feito para ela por Victoire de Castellane, designer de jóias da Dior) e já havia transformado um salão do Palácio do Eliseu no que a imprensa francesa mencionou depreciativamente como ''''salão de música pop''''.''''Carla trabalha rápido'''', disse uma editora de moda francesa familiarizada com a carreira de modelo da atual cantora. Essa opinião é certamente partilhada por Justine Lévy, a irmã romancista do filósofo Bernard-Henri Lévy, que estava casada com o filósofo Raphael Enthoven quando Carla se apaixonou por ele, depois de ter tido um caso, conforme se comentou, com o pai dele, Jean-Paul.Um romance que Justine escreveu posteriormente sobre esse quadro confuso tinha uma personagem baseada na ex-modelo, uma mulher ''''bela e biônica, com o olhar de uma assassina'''' e conhecida como ''''Exterminadora'''' no livro.Essas coisas podem não ser positivas na arena política. No entanto, alguns perguntam se Carla é menos palatável que sua reservada antecessora só porque tem sido fotografada com nada além das calcinhas. ''''Quem está levando a melhor aqui?'''', perguntou Paul Cavaco, diretor de criação da revista Allure, um tarimbado conhecedor do universo da moda. ''''Será que Carla se encaixaria nos jantares oficiais? Por que não? Ela é inteligente, conversadora, rica, conhece literatura e arte e assuntos correntes. É uma pessoa calorosa, e o fato de ser uma beleza reconhecida a prejudicaria por quê?''''Beleza não foi nenhum inconveniente para Cécilia, de quem Sarkozy se divorciou em outubro e com quem teve seu filho de 10 anos, Louis. De fato, exceto pela diferença em suas idades (a ex-primeira-dama é uma década mais velha), as duas mulheres são, de muitas maneiras, bem mais parecidas do que diferentes, partilhando antecedentes musicais (o bisavô materno de Cécilia foi um compositor espanhol), laços estreitos com a moda (ela foi modelo de Schiaparelli, e uma das testemunhas de seu casamento com Sarkozy foi Bernard Arnault, o presidente da LVMH Moet Hennessy) e uma interpretação decididamente relaxada do pacto matrimonial.TRADUÇÃO DE ALEXANDRE MOSCHELLA

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