Carnaval e política

Máscaras do presidente americano, Donald Trump, são a sensação do carnaval 2017, até mesmo no Brasil, onde não faltam políticos inescrupulosos ou motivos para protestar

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

25 Fevereiro 2017 | 05h01

Máscaras do presidente americano, Donald Trump, são a sensação do carnaval 2017, até mesmo no Brasil, onde não faltam políticos inescrupulosos ou motivos para protestar, e em países como Alemanha, Áustria, Itália, Malta, México. Neste, a queima de uma representação do polêmico muro que o magnata pretende erguer na fronteira com os EUA, à custa do governo mexicano, abriu a tradicional festa na Praça de Armas do porto de Veracruz – ironicamente, um dos principais portos de desembarque de imigrantes europeus com destino aos EUA nos anos 1920, no rastro da Primeira Guerra.

Por aqui, um grupo apareceu em um dos bloquinhos cariocas vestindo o “muro de Trump” e cantando “Vâmo Pulá!”, de Sandy & Junior. Máscaras de Trump a R$ 7 foram as mais vendidas em lojas da Rua 25 de março, em São Paulo, vencendo a concorrência com George W. Bush, Saddam Hussein, Barack e Michelle Obama, além de personalidades nacionais como João Doria, Lula, Dilma Rousseff, Sergio Moro, José Serra, Antonio Palocci, Tiririca e o japonês da federal.

Na Áustria, Manuela Plank, dona de uma loja de fantasias em Pfaffstaetten, pequeno vilarejo de 3.500 foliões ao sul de Viena, disse à Associated Press que teve de adaptar perucas loiras de seu estoque com o memorável penteado do presidente americano para atender à demanda – foi o item mais vendido da temporada entre os sete mil modelos de fantasias à venda. As perucas também se esgotaram nas lojas de fantasias da Alemanha, ao lado de gravatas vermelhas estranhamente longas e pó de arroz laranja. Trump foi destaque, ainda, entre os carros alegóricos que desfilaram pelas ruas de Colônia e Düsseldorf. Em um deles, ele aparece como o garoto em uniforme escolar sob o olhar do presidente russo, Vladimir Putin.

Em Nice, França, a sensação entre os carros alegóricos foi um boneco gigante de Trump. O magnata dominou as festividades pré-carnaval nos cantos mais distantes como em Nadur, um pequeno povoado fundado por árabes na ilha de Gozo, em Malta.

Com um tom mais agressivo, foliões italianos vestidos nas cores da bandeira americana desfilaram ao som de "American Idiot" no histórico carnaval de Viareggio, em Toscana, que acontece desde meados de 1800. Um dos carros trazia Trump com a Estátua da Liberdade sobre sua cabeça; outro, o tema “Bang Bang”, uma referência à violência com armas de fogo nos EUA.

O carnaval tem suas origens na Antiguidade, e foi trazido ao Brasil durante a colonização. Nas Saceias, festas que aconteciam na antiga Babilônia, um prisioneiro assumia o posto de rei por cinco dias, vestindo-se como ele – e passando as noites em seu harém. Nos saturnais e lupercais romanos, escravos e senhores colocavam-se uns no lugar dos outros. Essas festas pagãs tinham, desde sua origem, um caráter subversivo de insubordinação e inversão de papeis sociais.

Só assumiram um caráter religioso mais tarde, pelas mãos da Igreja católica, quando passaram a ser realizadas às vésperas da quaresma, quando tudo seria permitido e perdoado. Ainda assim, não perdeu a marca política e social. Ainda na Idade Média os foliões se apropriavam das ruas para censurar as instituições, os costumes e ideias da época.

“O segmento mascarado dos ritos de carnaval se expandiu durante a Idade Média para uma sátira do sagrado e a hipocrisia que o acompanha. Encontrou espaço principalmente nas cidades universitárias do norte da Itália, especialmente em Pádua, onde foi alimentado pelas tradições locais de independência política, usando paródias violentamente obscenas e ofensivas”, descreve Linda L. Carroll, da Universidade de Harvard, no ensaio “Ritos de Carnaval como Veículos de Protesto na Veneza Renascentista”.

Em Veneza, os ritos de carnaval “deram voz a protestos contra o poder excessivo e os privilégios das classes mais altas”, tradição mantida até hoje, com os povos do Xingu ganhando a Sapucaí.

Historicamente, o carnaval proporciona aos que se sentem oprimidos um momento de catarse. Isso acontece este ano num contexto de renascimento do ativismo político em todo o mundo. Há riscos como distrair a atenção e tirar o foco de ações políticas concretas. “Nenhuma das rebeliões renascentistas alterou o sistema que criticavam”, escreveu Linda L. Carroll. “Mas com sua ênfase na dignidade individual e direito a oportunidades, foram embriões de revoltas bem-sucedidas séculos mais tarde.”

Mais conteúdo sobre:
Carnaval Donald Trump

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.