'Carperos' contestam títulos de terra

A história da presença brasileira no Alto Paraná é uma mistura de forte pioneirismo agrícola, especulação fundiária e, cada vez mais, tensão com grupos locais sem-terra.

SANTA RITA / PARAGUAI, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h04

Os chamados "carperos" questionam a legalidade de parte dos títulos de propriedade dos brasiguaios, emitidos durante a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), ele próprio nascido em Encarnación, região hoje densamente povoada pela comunidade brasileira.

"Não temos nada contra os 'brasiguaios', que na verdade são cidadãos paraguaios normais. A questão é que muitas dessas propriedades não são regulares, pois seus títulos foram forjados, na era Stroessner", disse ao Estado José Rodríguez, líder da Liga Nacional de Carperos.

Os brasiguaios, porém, afirmam que os sem-terra usam retórica antibrasileira e invadem propriedades com documentos em dia.

Rumo ao leste. Na virada dos anos 60 e 70, a ditadura paraguaia atraiu dezenas de milhares de pequenos produtores brasileiros com a venda de terras a preços baixíssimos.

"Mas Stroessner só garantia a segurança. O restante - luz, estradas, escolas, igrejas - a gente tinha de construir sozinhos, com nosso trabalho", relembra o brasiguaio Francisco Mesomo, que tem filhos e netos paraguaios. O Instituto do Bem-Estar (IBR) do Paraguai financiava a compra, que deveria ser paga em até cinco anos com o próprio trabalho na terra.

Os fazendeiros brasileiros prosperaram rápido e foram comprando propriedades cada vez mais baratas e longe da fronteira. Os terrenos que vendiam valiam propriedades dez vezes maiores na região de Santa Rita e, assim, seguindo Paraguai adentro.

Nos anos 2000, a presença dos brasiguaios chegou à região do Chaco, perto da Bolívia. Na época, o hectare custava US$35, mas a entrada poderia ser de 5% do valor e o restante da quantia, pago em cinco anos sem juros. Hoje, o hectare custa US$ 500. "Eu comprei só 30 mil hectares. Perdi uma fortuna", lamenta-se um grande proprietário brasiguaio.

Estima-se que 45% do PIB paraguaio venha do campo, principalmente da produção dos produtores brasiguaios. A transformação promovida pelos proprietários vindos na era de Alfredo Stroessner tornou o Paraguai o quarto maior exportador de soja do mundo. / R.S.

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