Rodrigo Abd/AP
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Carrasco ou bom samaritano?; leia artigo

Apesar da falta de status legal, ao longo dos séculos, o Haiti efetivamente se tornou um protetorado dos Estados Unidos 

Ricardo Seitenfus*, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2021 | 05h00
Atualizado 07 de outubro de 2021 | 10h44

Um resultado dos equívocos da estratégia dos EUA no Haiti ao longo de dois séculos acabou de explodir à vista do mundo todo, com imagens que comprovam, nas águas do Rio Grande, no Texas, o rosto de uma América de outlros tempos.

Depois de uma odisseia desumana, um terço dos 250 mil haitianos que chegaram ao Brasil e ao Chile desde 2012 já bateu à porta dos EUA. Ou estão a caminho, como os 19 mil que agora se encontram na fronteira entre a Colômbia e o Panamá. As inacreditáveis condições dessas migrações árduas mostram que parte da população haitiana não quer mais se ver prisioneira na ilha de Hispaniola, contrariando a estratégia secular dos EUA em relação ao Haiti.

A onda de críticas sofridas pelo governo americano chegou ao ápice com a demissão abrupta do recém-nomeado enviado especial para o Haiti, o embaixador Daniel Lewis Foote. Pela primeira vez na história, um diplomata sênior entrega o cargo por causa da política de Washington no Haiti.

Entremeada por críticas ocasionais à política de migração e mesmo por possíveis soluções para a atual crise política haitiana, a carta de demissão do embaixador Foote destaca o “ciclo de intervenções políticas internacionais no Haiti terá consequências desastrosas não apenas para o Haiti, mas também para os EUA e os vizinhos no hemisfério”.

Com um parágrafo simples e direto, por assim dizer, o embaixador Foote questiona mitos, homens e deuses, juntando-se assim aos que acreditam que não é o Haiti que não está preparado para a democracia. São os EUA que não estão prontos para ver florescer a democracia no Haiti. Por isso, ele diz que “acima de tudo, o que nossos amigos haitianos mais desejam – e de que mais precisam – é a oportunidade de abrir seu próprio caminho, sem fantoches internacionais nem candidatos privilegiados, mas com um apoio verdadeiro”. 

Sem demora, a secretária-adjunta Wendy R. Sherman, segunda no Departamento de Estado, respondeu ao embaixador Foote em nome do governo Biden. Com um tom crítico, acerbo, pessoal e pouco diplomático, o documento do Departamento de Estado reconhece que a situação no Haiti “foi dolorosamente marcada pelo assassinato do presidente (Jovenel Moises), após terríveis tempestades e terremotos e todos os tipos de provações que o povo haitiano teve de enfrentar – acima de tudo, o desafio constante da pobreza”. Em suma, os dois diplomatas seniores concordam: a situação do Haiti é insustentável.

Sobre a interpretação do passado, mas também sobre o enfrentamento dos desafios do presente, aqui temos, vindos do mesmo governo e, melhor ainda, do mesmo edifício encarregado das relações externas, duas visões diametralmente opostas sobre o papel atual e histórico dos EUA no Haiti. O que é verdade entre as versões do carrasco e do bom samaritano?

Historicamente, todos os governos seguiram o credo expressado pelo presidente Thomas Jefferson às vésperas da independência do Haiti: os EUA consideram o Haiti uma ameaça. “Não cabe aceitá-lo no concerto das nações.” 

O objetivo declarado é impedir a inserção da economia haitiana no comércio internacional. O objetivo não declarado é diferente: Jefferson procura amordaçar o fluxo de ideias, isolando o vírus revolucionário que ameaça as fundações do mundo ocidental.

A pena pecuniária infligida pela França ao Haiti em 1826 – US$ 35 bilhões – cujo pagamento se estendeu até meados do século passado, foi acompanhada pelo controle financeiro e político dos EUA, depois de o país ter concedido seu reconhecimento à existência jurídica do Haiti, em 1862. Mesmo antes dessa data e até a ocupação (1915-1934), a Marinha dos EUA havia feito cerca de 20 incursões ao país. Apesar da falta de status legal, o Haiti efetivamente se tornou um protetorado americano.

O Haiti foi uma das principais vítimas da Guerra Fria, que chegou às portas da Flórida com a Revolução Cubana e a Crise dos Mísseis. Foi durante esse período que, sob a proteção cega de Washington, o sombrio ditador François Duvalier teve permissão para fazer tudo que quisesse.

Em dezembro de 1975, David Edwards, executivo do Citibank, convidou para uma viagem ao Haiti, com todas as despesas pagas, um jovem e promissor casal de políticos recém-casados: Hillary Rodham e William Clinton. Durante as décadas seguintes, nenhuma iniciativa de Washington a respeito do Haiti passaria sem sua aprovação.

Assim, em 1981, os EUA inundaram o mercado haitiano com seu arroz subsidiado, prejudicando sua economia agrária e provocando êxodo rural. De acordo com os cálculos de Terry F. Buss e Adam Gardner, no século passado, cinco presidentes do Haiti foram depostos como resultado da ação direta dos EUA.

Em meados de fevereiro de 2004, Colin Powell disse à Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA que não tinha planos de enviar militares ao país porque Jean-Bertrand Aristide fora “eleito democraticamente”. Os EUA chegaram a sinalizar que um golpe de estado seria inaceitável. No entanto, duas semanas depois, foi em um avião de suas forças especiais que Washington enviou Aristide ao exílio.

Durante inúmeras crises políticas haitianas, os Clinton desempenham um papel fundamental. Primeiro, como protetores de Aristide. Depois, como seus carrascos. O mesmo vale para Préval, visto como um homem providencial em 2006 e o homem a ser abatido em novembro de 2010. 

No rescaldo do terremoto de 2010, o casal, seus colaboradores próximos e a Clinton Global Initiative Foundation (FCGI), assumiram as rédeas das ações de Washington e do sistema das Nações Unidas no Haiti. Com os resultados que conhecemos.

Desde as primeiras reuniões, a Comissão Interina para a Reconstrução do Haiti (CIRH) mostrou suas deficiências. O que mais se destacou foi a relação ambígua, marcada por interesses cruzados, entre a FCGI, o representante especial de Ban Ki-moon, Bill Clinton, a chefe do Departamento de Estado dos EUA, Hillary Clinton, e a representante americana no CIRH, Cherryl Mills, assessora de Hillary e ex-advogada de Bill Clinton no caso Monica Lewinski. O controle dos Clinton sobre os assuntos do Haiti impediu que Barack Obama visitasse o Haiti após o terremoto de 2010.

Existe um triângulo ativo nas relações internacionais, marcado pela interferência mútua dos três ângulos. Assim, quanto mais poderoso um Estado, mais ele realizará ações de todos os tipos, e mais cometerá erros. Poucos Estados têm um excedente de poder capaz de compensar seus erros. Essa é a prerrogativa exclusiva das grandes potências.

No contexto do continente americano, saltam aos olhos dois grandes fracassos da estratégia de Washington, agravados pelo fato de estarem a dois passos de seu território. Primeiro: o fracasso em Cuba. A revolução de Castro continua, mesmo depois de 60 anos de bloqueio. Mesmo depois do desaparecimento dos Castro. Segundo: a dramática situação no Haiti.

Como aceitar a ideia de que as melhores universidades, as dezenas de centros de estudos, todas repletas de especialistas de todos os tipos, além de alguns dos mais brilhantes políticos, diplomatas e intelectuais, não são capazes de enfrentar esses dois desafios?

Sob minha proposta, Cuba e a República Dominicana foram integradas na condição de observadoras à CIRH. Apesar de seu fracasso e, portanto, do fracasso da cooperação transideológica, esse é o único caminho a seguir. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

* REPRESENTANTE ESPECIAL DA OEA NO HAITI ENTRE 2009 E 2011

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