Carta aberta ao senador Chuck Schumer

Apesar de primorosos, argumentos do político democrata contra o acordo nuclear com o Irã não são convincentes

Fareed Zakaria, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2015 | 02h02

Prezado senador Chuck Schumer, quando o sr. anunciou sua decisão de votar contra o acordo nuclear com o Irã, expôs suas razões num documento de cerca de 1.700 palavras, ponderado na substância e primoroso no tom. No entanto, no fim das contas, não o achei convincente.

Acredito que o acordo tem falhas. Entretanto, ele prevê o conjunto de inspeções, protocolos de verificações e restabelecimento de medidas mais intrusivas, rigorosas e abrangentes jamais negociadas. Basta comparar o detalhado documento de 159 páginas ao acordo firmado pelos Estados Unidos com a Coreia do Norte, um documento de quatro páginas redigido em termos vagos com poucas cláusulas de monitoramento e aplicação.

O sr. apresenta três tipos de objeções, das quais tratarei mais adiante, mas não toma nota do que acontecerá no começo, antes que o Irã possa contar com uma ampla redução das sanções.

O Irã terá de destruir 98% de seu urânio enriquecido, todo seu urânio enriquecido de 5% a 20%, desmontar e armazenar mais de dois terços das suas centrífugas (incluindo todas as mais avançadas), encerrar o enriquecimento em sua central nuclear de Fordo, e tornar inoperantes os componentes básicos do seu reator (de plutônio) de Arak. Todas estas medidas terão de ser concluídas para atender à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

É difícil imaginar que um ataque militar sério contra o Irã faria retroceder seu programa nuclear como faz o atual acordo, desde seu princípio. Por exemplo, Fordo é uma central localizada nas profundezas de uma montanha e provavelmente sobreviveria aos mais intensos bombardeios.

Suas primeiras objeções são a respeito das inspeções e das sanções. O sr. afirma que as inspeções não ocorrem "em todo lugar e a qualquer momento" e têm um atraso de 24 dias que é "preocupante". Mas todas as instalações nucleares conhecidas do Irã estão sujeitas ao monitoramento em qualquer lugar e a qualquer momento. No caso dos sítios novos e suspeitos, como o especialista nuclear Jeffrey Lewis destaca, "os que não apoiam o acordo somam todos os limites de tempo e afirmam que as inspeções ocorrerão somente depois de uma pausa de 24 dias. Isso não é verdade. Se a inteligência americana apanhasse os iranianos em flagrante, talvez eles quisessem arrastar as coisas ao máximo. Mas, neste caso, o jogo acabaria".

Nestas circunstâncias, senador Schumer, o sr. afirma que cláusulas referentes à volta de sanções são complicadas. Talvez tenhamos lido documentos diferentes. Aquele que estou olhando neste momento contém o primeiro mecanismo de reimposição automática de sanções que já foi criado, que eu saiba. E elas podem ser determinadas unilateralmente por Washington.

Peter Feaver, um ex-conselheiro do presidente George W. Bush, e o especialista em sanções Eric Lorber, expressando seu ceticismo a respeito do acordo, admitem: "Fomos pressionados a apresentar outros exemplos quando o Conselho de Segurança da ONU votou para acabar com o privilégio de voto em reuniões de futuros CSs da ONU e criar decisões legalmente vinculantes na questão da decisão autoritária de um único membro".

O sr. afirma que os Estados Unidos poderão preferir restaurar parcialmente as sanções e outros países talvez não concordem com isso. Mas o fato de Washington poder voltar a impor todas as sanções é certamente um instrumento extraordinário, que poderia ser utilizado para obter a concordância de outros países sobre uma parcial reimposição das sanções.

Sanções. O sr. afirma ainda que, "passados 15 dias depois da redução das sanções, o Irã estaria mais forte em termos financeiros e mais apto a levar adiante um robusto programa nuclear". Sejamos claros. O Irã terá uma redução das sanções independentemente de qualquer outra coisa. As sanções internacionais foram impostas ao Irã por outros países unicamente para chegar a um acordo nuclear. Nenhum deles continuaria prorrogando as sanções, considerando que o Irã chegou ao que todos consideram um acordo aceitável.

A revista Foreign Policy noticiou uma reunião extraordinária, no início do mês, quando diplomatas das outras cinco grandes potências envolvidas no acordo se reuniram com senadores para instá-los a dar seu apoio. Os enviados russos e britânicos explicaram que, se o acordo fosse rejeitado, as sanções deixariam de ter razão de ser.

Sua objeção final é que o Irã usaria alguns de seus recursos recentemente liberados "e redobraria seus esforços para criar ainda mais problemas no Oriente Médio". Isso talvez fosse verdade, mas o acordo não impede que os EUA e seus aliados se contraponham a essas atividades, como fazem hoje. As tensões não nucleares entre Irã e EUA são anteriores ao programa nuclear iraniano, prosseguem hoje, e persistirão no futuro. Mas seriam muito piores se o Irã tivesse capacidade nuclear.

Sua conclusão fundamental é que, "se alguém achar que o Irã se tornará mais moderado ... deve aprovar o acordo ... Mas se achar que os líderes iranianos não se tornarão mais moderados ... deverá concluir que seria melhor não aprovar o acordo". Esta é a parte mais intrigante e francamente ilógica do seu documento. Se o Irã continua sendo um Estado renegado, tanto maior o motivo para controlar seu programa nuclear.

Rejeitar o acordo faria com que o Irã intensificasse seu programa nuclear, sem inspeções ou restrições. E os EUA ficariam humilhados e isolados no mundo. O sr. não pode querer isso. Respeitosamente, rogo que o sr. reconsidere sua posição./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

FAREED ZAKARIA É COLUNISTA DO THE WASHINGTON POST

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