Carta achada no Mali revela táticas da Al-Qaeda

Encontrado em Timbuctu, relatório secreto feito por líder da célula terrorista local critica imposição 'rápida demais' da sharia

BABA AHMED , ASSOCIATED PRESS / TIMBUCTU, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2013 | 02h04

Na pressa da fuga de Timbuctu, no mês passado, combatentes da Al-Qaeda deixaram para trás um precioso documento: debaixo de uma pilha de papéis e de lixo, foi encontrada uma carta secreta detalhando a estratégia da rede de terror para conquistar o norte do Mali.

O papel constitui uma oportunidade inédita para se ter uma ideia do modus operandi da rede terrorista. A Al-Qaeda, indica o documento, previra a intervenção militar que a desalojaria, em janeiro, e reconhecera suas próprias vulnerabilidades.

A carta mostra também as divisões internas da filial da Al-Qaeda no Norte da África sobre a rapidez e o rigor com que a lei islâmica deve ser aplicada. O comandante, por exemplo, expressa consternação diante da flagelação de mulheres e da destruição dos monumentos de Timbuctu.

O arquivo também não deixa dúvidas de que, apesar de uma retirada temporária no deserto, a Al-Qaeda está determinada a operar na região por muito tempo. Para isso, pode fazer concessões de curto prazo em matéria de ideologia com o objetivo final de conquistar aliados.

CEO. O documento de mais de nove páginas, encontrado pela Associated Press em um edifício ocupado pelos extremistas islâmicos por quase um ano, é assinado por Abu Musab Abdul Wadud - nome de guerra de Abdelmalek Droukdel -, escolhido por Osama bin Laden para dirigir o braço africano da Al-Qaeda. A avaliação lúcida, ponto por ponto, redigida no mesmo estilo de um memorando de um CEO aos seus diretores, aponta aos seus jihadistas no Mali o que eles fizeram de errado nos últimos meses e o que devem corrigir.

Droukdel, o emir da Al-Qaeda no Magreb Islâmico, afirma que seus combatentes mostraram pressa e brutalidade excessivas na aplicação da sharia no norte do Mali. Comparando a relação da Al-Qaeda com o Mali à de um adulto com uma criança, ele os insta a serem mais cuidadosos, como um pai: "A criança tem poucos meses, engatinha, e ainda não conseguiu ficar em pé". "Se quisermos realmente nos manter firmes sobre nossas pernas neste mundo cheio de inimigos ansiosos por se lançarem sobre nós, devemos ajudá-la, pegá-la pela mão e ampará-la até que aprenda a ficar de pé."

Ele recrimina os combatentes por terem usado de força excessiva e os adverte de que, caso não se moderem, poderão comprometer todo o seu projeto. "Todo erro nesta fase importante da vida da criança representará uma carga enorme para os seus ombros. Quanto maior o erro, mais pesada a carga sobre seus ombros, e acabaremos sufocando-a e provocando a sua morte."

A carta está dividida em seis capítulos, três dos quais foram recuperados pela AP, juntamente com algumas páginas soltas, encontradas no chão do Departamento de Auditoria Regional do Ministério das Finanças. Segundo os malineses, o edifício, um dos vários que os extremistas tomaram na cidade, era bem guardado, com dois bloqueios e um zigue-zague de barreiras para dificultar a entrada. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.