Sang Tan/AP
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Carta de repórter complica Murdoch

Jornalista afirma que escutas eram discutidas em reuniões do ''News of the World''; ex-assessor e ex-advogado do empresário dizem que depoimento da família do magnata no Parlamento britânico foi cheio de ''imprecisões e exageros''

, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2011 | 00h00

LONDRES

Em carta escrita há quatro anos e divulgada ontem por parlamentares que investigam o escândalo das escutas telefônicas na Grã-Bretanha, o ex-repórter Clive Goodman, que cobria a família real, diz que os grampos eram amplamente discutidos em reuniões do tabloide News of the World, do magnata Rupert Murdoch.

Segundo Goodman, o então diretor de redação do tabloide, Andy Coulson, sabia de tudo e proibiu qualquer menção sobre o assunto. Coulson, que sempre negou ter conhecimento da prática, foi nomeado porta-voz do governo britânico logo após deixar o tabloide, em 2007, o que fez o escândalo atingir o primeiro-ministro David Cameron.

Em 2007, Goodman e Glenn Mulcaire, detetive contratado pelo tabloide para bisbilhotar políticos e celebridades, foram condenados - o jornalista passou 4 meses na cadeia e o detetive, 6 meses. Até o momento, foram os dois únicos punidos pelo escândalo.

Na carta divulgada ontem, Goodman diz que Coulson lhe prometera manter seu emprego se ele não envolvesse o jornal na Justiça - o jornalista, porém, foi demitido logo após sua prisão. Goodman garante também que outros repórteres do grupo recorriam à mesma prática ilegal.

Em testemunhos escritos, também divulgados ontem, Jonathan Chapman, ex-advogado da News International, braço britânico da News Corp., empresa do magnata, e Tom Crone, um ex-assessor, afirmaram que o depoimento da família Murdoch no Parlamento, em julho, foi marcado por "deturpações, exageros e imprecisões".

As novas revelações colocam mais pressão sobre Coulson e James Murdoch, filho de Rupert e presidente da News International. Ambos haviam declarado que não sabiam do alcance das escutas. A comissão que investiga o escândalo não descarta a possibilidade de convocar James para depor de novo no Parlamento.

"Quando tivermos mais informações, acho que é bem provável que mostremos esses pontos a James Murdoch", afirmou o chefe da comissão, John Whittingdale.

Escândalo. O caso tornou-se público em 2006, quando a família real desconfiou que estava sendo grampeada depois que o News of the World publicou uma reportagem sobre uma contusão no joelho do príncipe William da qual ninguém sabia.

Nos últimos anos, o tabloide teria grampeado cerca de 4 mil pessoas em busca de informações sobre celebridades, políticos, membros da família real, vítimas de crimes e até de parentes de vítimas dos atentados de Londres, em 2005, e de soldados mortos no Afeganistão e no Iraque.

Em julho, o caso ganhou nova força após a denúncia de que o detetive do tabloide também teria invadido o celular de Milly Dowler, de 13 anos, sequestrada e morta em 2002. Enquanto a polícia procurava a garota, ele ouviu suas mensagens e apagou algumas para deixar espaço para novas, o que fez a polícia acreditar que ela estivesse viva.

Para tentar conter o escândalo, Murdoch pediu desculpas, aceitou depor no Parlamento e fechou o News of the World. No entanto, os problemas continuaram. Em menos de 24 horas, ele perdeu um importante executivo (Les Hilton) e uma CEO (Rebekah Brooks). Além disso, os EUA começaram a investigar a News Corp. e fracassou o acordo para que o magnata comprasse a TV por satélite BSkyB. / AP e REUTERS

PARA ENTENDER

Escândalo afeta premiê

Até ontem, a única prova que ligava Andy Coulson a algum crime eram e-mails sugerindo que ele subornou policiais para obter informações. Agora, há indícios de que Coulson não só sabia como tentou encobrir os grampos. Isso aumenta a pressão para que o premiê David Cameron admita, finalmente, que errou ao dar um cargo de confiança para quem o enganou.

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