Carta de uma prisão ucraniana

Neste Natal, atrás das grades, tive um pouco de conforto ao saber que a crueldade e a criminalidade do regime que governa em Kiev finalmente foram reveladas ao mundo

O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2012 | 03h04

Dizem que numa trincheira não existem ateus. Aqui, depois da encenação que foi o meu julgamento, e de quatro meses e meio numa cela, descobri que ateus tampouco existem numa prisão.

Quando, apesar da dor insuportável, uma pessoa é interrogada - até mesmo na cela - durante dezenas de horas sem uma pausa, e todo o sistema de coerção de um regime autoritário, até mesmo seus órgãos de comunicação, tenta desacreditá-la e destrui-la de maneira definitiva, a oração torna-se a única íntima conversação que tranquiliza e devolve a confiança que lhe é permitida.

A gente se dá conta de que Deus é o único amigo e a única família mais próxima, pois - sem ter direito até mesmo à visita de um sacerdote - não há mais ninguém em quem confiar os próprios temores e esperanças.

Nesta época de amor e de espírito familiar, a solidão de uma cela de prisão é quase insuportável. O cinzento silêncio mortal da noite (os guardas ficam nos espiando com prazer de voyeur por uma fenda na porta), os gritos repentinos e quase desumanos dos prisioneiros, gritos de dor e de raiva, o distante tinido e o ranger dos ferrolhos da prisão tornam o sono impossível, ou tão perturbado que se transforma em tormento.

O estranho é que nossos sentidos não ficam turvados por este pavoroso mundo de morte. Ao contrário, ele os incendeia: a mente liberta-se das preocupações mundanas e medita sobre o inestimável e o lugar que ocupamos nele - uma liberdade de espírito que é um dom realmente inesperado na época do Natal.

Na escuridão da cela, reúno forças e esperanças pelo fato de que, de algum modo, Deus parece estar perto de mim. Pois, onde mais Cristo estaria, senão ao lado dos que sofrem e são perseguidos? Li recentemente as Cartas da Prisão sublimes e provocadoras de Dietrich Bonhoeffer, prestes a ser martirizado, nas quais ele anseia por um Cristo capaz de oferecer misericórdia a um mundo, o nosso mundo.

Escritas numa cela podre, escura, apertada, onde o objetivo era fazer com que a esperança morresse antes do corpo, Bonhoeffer escreveu um livro rico de fé, de sinceridade, de possibilidades e de esperança - até mesmo na hora mais negra da humanidade.

Impiedade. Um trecho em particular retorna à minha mente enquanto contemplo a amarga situação da Ucrânia. Aguardando se aproximar o momento da execução pelos nazistas, Bonhoeffer escreveu que, na prisão, "a impiedade do mundo não é ocultada, ao contrário, é revelada, e assim exposta a uma luz inesperada".

Neste Natal, experimentei um pouco de conforto ao saber que a impiedade, a desumanidade e a criminalidade do regime que hoje controla Kiev finalmente foram reveladas ao mundo da maneira mais clara. Sua posição democrática foi desmascarada como cínica encenação política, sua afirmação de que deseja um futuro europeu para o povo ucraniano foi dada a conhecer como uma mentira, e a capacidade dos seus cleptocratas mostrada em toda a sua crueza. O desprezo do regime pela Constituição e pelo estado de direito agora é inegável, e esta clareza infunde alguma força.

O mais importante é que o povo sofredor da Ucrânia também se tornou conhecido mundialmente, e nós não estamos mais sozinhos no nosso sofrimento. Atenuá-lo tornou-se uma causa justa em toda a Europa e no mundo. A opressão diária, a imprensa amordaçada e as extorsões das empresas para arrancar-lhes dinheiro, tudo aponta para uma máfia de Estado nas fronteiras da Europa.

Agora nossos amigos europeus não podem mais negar a complacente vilania do regime com o qual são obrigados a tratar. E, neste Natal, agradeci por ser capaz de acreditar que a Europa democrática não tolerará esta situação. Os ucranianos se sentirão mais fortes em saber que não estão sozinhos em sua luta.

Não pretendo ser especialista em fé religiosa e em valores espirituais. Sou apenas uma crente que não pode aceitar que nossa existência seja o resultado de algum bizarro acidente cósmico. Estou convencida de que nós somos parte de um ato misterioso e contudo integral, cuja origem, rumo e propósito embora difíceis de compreender às vezes, têm um significado e um propósito - mesmo quando estamos confinados atrás das grades de uma cadeia.

É somente a fé na ideia de que as nossas vidas são importantes, e nossas decisões devem ser julgadas por seu conteúdo moral, que nós na Ucrânia, e em outras partes do mundo, conseguiremos encontrar o caminho para sair da miséria, da infelicidade e do desespero que nos consumiu nos dois últimos anos. Está em nosso poder recuperar ou revigorar nossas liberdades e nossas sociedades, não pelo esforço individual, mas unindo forças com pessoas que pensam como nós em todo o mundo. Sei que conseguiremos.

Neste Natal, pedi à minha família e aos amigos em toda parte que não se preocupem por mim. Como Anna Akhmatova, a grande poetisa e cronista da época do terror de Stalin, disse: "Estou viva neste túmulo". Na realidade, sei que estou mais viva do que os homens que me prenderam aqui.

O Natal deve assinalar a possibilidade de um novo começo para todos os homens e mulheres.

Como Bonhoeffer reafirmou com seus últimas palavras: "Para mim este é o começo da vida". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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