Cartas anônimas ameaçam imigrantes brasileiros nos EUA

Cartas com ameaças fizeram comerciantes brasileiros da cidade de Danbury, no estado norte-americano de Connecticut, retirarem as bandeiras nacionais que haviam exposto nos estabelecimentos para comemorar a Copa do Mundo. As cartas, assinadas por "um grupo de patriotas", começaram a circular em abril.Na quinta-feira passada, uma delas também foi recebida pelo jornal The Brazilian Press, de Newark, no estado de New Jersey, qualificando os brasileiros como "assassinos, traficantes de drogas e corruptos", levando a crer que o autor faria referência ao caso de Saul dos Reis Júnior, acusado de matar, no mês passado, uma adolescente de Danbury que conheceu pela internet."Há indicações de que essas cartas têm a mesma origem e quem as escreveu usou uma ocorrência isolada para generalizar a comunidade, que é vista por todas as autoridades americanas como ordeira e disciplinada", disse hoje o cônsul do Brasil em Nova York, Flávio Perri.Como medida de precaução, o diplomata enviou notificação à polícia de Danbury e outras cidades de Connecticut, New Jersey e do estado de Nova York onde há grande concentração de imigrantes brasileiros pedindo atenção à segurança deles.As cartas são escritas em letras góticas, tipologia usada por grupos radicais como os neonazistas. A que foi recebida pelo jornal de Newark continha cópia de uma outra enviada a um estabelecimento comercial de Danbury.Nessa, o autor pergunta quando o proprietário removeria a bandeira brasileira da vitrine de sua loja e acrescenta: "Para nós, ela representa assassinos, traficantes de drogas e corruptos. Vocês, brasileiros ilegais, precisam entender que estão indo muito além do limite da nossa tolerância. Se vocês não mudarem seu comportamento, não sabemos o que vai acontecer". O autor termina a carta identificando o remetente como "um grupo que ama a América e vai proteger seus valores à custa das próprias vidas". No texto para o jornal, o autor pede que o editor pense sobre "a extrema irritação a que fomos levados com a presença de assassinos, traficantes de drogas e corruptos brasileiros vivendo ao nosso lado, cujas crianças vão às mesmas escolas que as nossas vão". E prossegue: "Não satisfeitos, eles querem nos mostrar seu poder, expondo a bandeira brasileira por todo lugar, em completo desrespeito ao povo americano. Esta carta é para dizer que a nossa tolerância está acabando e não sabemos o fim dessa situação!".Para Marco Fonseca, editor do The Brazilian Press, esse tipo de ameaça "é um discurso contra todos os estrangeiros" e não especificamente contra brasileiros. "Essa gente tem uma imagem construída dos estrangeiros e associa brasileiros com hispânicos, que são a grande maioria dos imigrantes na região."Fonseca acredita que a carta enviada ao jornal foi "uma tentativa de algum grupo radical para conseguir propaganda" e, por isso, decidiu publicar apenas uma notícia pequena sobre a ameaça. Alertado pelo jornal, o consulado brasileiro em Nova York colocou uma nota no seu site na internet, informando que havia comunicado o fato às autoridades norte-americanas.A nota também recomenda "que os cidadãos brasileiros se mantenham atentos a qualquer ato que possa parecer ameaçador ou hostil, comunicando toda ocorrência extraordinária às autoridades policiais locais". O consulado tem jurisdição sobre os estados de Nova York, New Jersey, Connecticut, Pensilvânia e Delaware.A intranqüilidade provocada pelas ameaças é maior em Danbury, onde o dono da churrascaria Minas Carne Deli, José Mourão Neto, já recebeu duas cartas desde abril. Mourão disse que não deu importância às ameaças, mas retirou a bandeira que tinha colocado na vitrine.A notícia se espalhou entre os moradores da cidade e outros estabelecimentos fizeram o mesmo. "Para nós, brasileiros, quando estamos fora do nosso país, a bandeira representa tudo aquilo de que temos saudade", comentou Flávio Perri. "É triste que nossos imigrantes se sintam constrangidos em exibir um símbolo nacional."

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