Jamil Chade / Estadão
Jamil Chade / Estadão

Cartazes causam polêmica na Suíça em voto sobre imigração

País decide neste fim de semana o destino da terceira geração de imigrantes; imagens com burkas e jihadistas voltam a alimentar o debate sobre integração

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2017 | 08h30

GENEBRA - Os suíços vão às urnas neste fim de semana para se pronunciar se aceitam que netos de estrangeiros nascidos no país possam se beneficiar de um processo de naturalização facilitada. A iniciativa, na realidade, questiona quem são os suíços e quais critérios devem ser usados para conceder a cidadania aos descendentes de estrangeiros legalmente residentes no país. 

A ideia de acelerar a naturalização da terceira geração de imigrantes foi proposta pelo próprio governo. Mas, assim como em votações passadas, grupos de extrema direita usam imagens polêmicas em cartazes espalhados pelo país para tentar reverter a decisão.

O governo estima que 25 mil jovens seriam beneficiados pelo novo sistema que, segundo as autoridades, não significará uma naturalização automática. 

Enquanto a maioria dos partidos políticos apoia a facilitação da naturalização para os netos de imigrantes que chegaram ao país, o grupo de direita UDC fez nas últimas semanas uma campanha contrária. Foram colocados cartazes pelas cidades mostrando uma mulher com um véu ao lado de um apelo contra a naturalização dos estrangeiros. Em outro cartaz, um jihadista aparece com uma arma, sugerindo que a facilitação da naturalização aumentaria as chances de terroristas e extremistas se instalarem no país. 

O UDC explica que a imagem do jihadista foi iniciativa apenas de um setor jovem do partido, enquanto a mulher com a burka foi uma campanha de um grupo de cidadãos liderado por um deputado do UDC.  

Ainda que as pesquisas de opinião apontem que a naturalização facilitada será aprovada, o impacto dos cartazes foi real e, em apenas algumas semanas, o campo contrário ao que chamam de "distribuição de passaportes suíços a qualquer um" ganhou mais de 10 pontos porcentuais.

Para analistas, a imagem polêmica repete a mesma estratégia do UDC utilizada há sete anos quando, em outro debate sobre imigração, usou a imagem de ovelhas negras sendo chutadas para fora da Suíça por ovelhas brancas. O mesmo grupo identificou em outras votações os imigrantes como criminosos. 

Para o governo e a imprensa pública, a campanha desta vez foi comparada às táticas de “fatos alternativos” do presidente dos EUA, Donald Trump. Um estudo encomendado pela Secretaria de Estado para Migrações e realizado pela Universidade de Genebra concluiu que 58% dos beneficiados pela proposta seriam netos de italianos, além de um grupo importante de espanhóis e portugueses, e não de muçulmanos. 

Para se defender, membros do partido explicam que o alerta é que, no futuro, o processo de naturalização facilitada não tocará europeus, mas sim muçulmanos. Os dados, mais uma vez, não confirmam a tendência. Pelo estudo, os turcos responderiam por 9% dos beneficiados no futuro. Os kosovares teriam 3,4%. Nenhum deles entrariam na categoria de usuários habituais de burkas. 

“Em uma ou duas gerações, quem serão essas pessoas beneficiadas?”, questionou o deputado do UDC, Jean-Luc Addor. “Serão africanos, sírios e afegãos”, alertou. Addor é o presidente do Comitê contra a Cidadania Facilitada, o mesmo que encomendou os cartazes. 

As imagens polêmicas foram produzidas pela agência Goal AG, liderada pelo representante da nova direita europeia, Alexander Segert, e chegou a causar indignação ao mostrar em outras votações membros da esquerda como ratos roubando moedas. A imagem foi comparada às estratégias nazistas de propaganda. 

Em uma rara entrevista ao Financial Times no final de 2016, Segert disse que quem o acusa de fascista é por que não tem “bons argumentos”. Suas imagens começaram a ser usadas até mesmo por grupos neonazistas na Alemanha. Na Áutria, ele chegou a ser processado por incitar o ódio depois que lançou um videogame para um partido local (FPO). No jogo, o objetivo era colocar e derrubar mesquitas que apareciam nas telas. Ele foi inocentado.

Polêmico, Segert teve um de seus carros incendiados por grupos de extrema esquerda na Alemanha. Mas, ainda assim, seu próximo passo é a campanha eleitoral em Berlim, que representará um desafio para a chanceler Angela Merkel.  

O publicitário argumenta que ele apenas “reduz mensagens complexas para que elas possam ter um efeito e sejam temas de discussão”. Mas grupos de direitos humanos e até a ONU chegaram a acusar sua publicidade de incentivar o ódio e manipular o medo. “Não podemos fabricar esses medos. Eles já existem”, respondeu. 

Condições. Ainda que considerada como “facilitada”, a iniciativa de naturalização de um neto de imigrante não é automática. Para que ela ocorra, a pessoa precisa ter menos de 25 anos, ter nascido na Suíça, ser escolarizado e ter visto válido. Imigrantes irregulares e famílias que estejam sendo ajudadas por benefícios sociais estão impedidos de solicitar a cidadania. 

Além disso, os pais precisam ter vivido na Suíça por pelo menos uma década, com visto e escolaridade. Quanto aos avós, eles precisam ter tido um visto de residência válido.

Os jovens ainda precisam mostrar “respeito à ordem jurídica e aos valores da constituição”, além de ser fluentes em uma das quatro línguas da Suíça e pagar impostos. 

Pelas escolas, grupos se formaram para apoiar a naturalização facilitada de colegas de classe. “A Suíça precisa reconhecer seus filhos”, apela o Partido Socialista, que defende a naturalização facilitada. “Eles são nossos compatriotas”, insiste, lembrando que muitos desses netos sequer conhecem o país de seus avós. “Quando vão, é para passar férias”, diz. “Eles falam a nossa língua, vivem, estudam e trabalham na Suíça. Nada os distingue de um jovem com um passaporte suíço”, indica.

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