Cartéis de drogas mexicanos usam comércio legal para lavar dólares

Narcotraficantes compram produtos nos Estados Unidos, exportam e revendem no México

TRACY WILKINSON, KEN ELLINGWOOD, LOS ANGELES TIMES / LOS ANGELES, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2011 | 03h01

"É um método excelente", disse um agente secreto da imigração dos EUA. "Você esconde o dinheiro da droga em muitos negócios legítimos e é o que estão fazendo. Você pode fazer uma auditoria completa na contabilidade deles e tudo o que vai achar são produtos importados e exportados."

Essa é a maneira como as coisas funcionam: em vez de transportar o dinheiro para o México em malas e caminhões, as equipes que lavam o dinheiro dos cartéis nos EUA usam os dólares para comprar produtos e, em seguida, exportá-los. Eles criam toda a documentação necessária para dar uma aparência de legalidade à transação. Assim, a receita com a droga transforma-se em fundos legítimos obtidos numa operação comercial.

O dinheiro da droga vira tomates ou parafusos de fabricação chinesa, que são transportados e revendidos no México. Com isso, os cartéis alcançam dois objetivos de uma vez só: transferem a receita obtida para seu país e convertem dólares em pesos, numa transação fácil de ser declarada às autoridades.

O esquema, usado há bastante tempo pelos cartéis colombianos, agora foi adotado pelos traficantes mexicanos, principalmente após novas restrições impostas pelo governo do México, que incluem limites para a compra de bens de grande valor, como casas e barcos. Depois de anos usando dólares para comprar artigos de luxo e pagar fornecedores, os cartéis se viram precisando de pesos e a lavagem de dinheiro feita por meio do comércio resolveu o problema.

"É a melhor maneira de ocultar ganhos", disse Raymond Villanueva, que dirige a divisão da agência de imigração que investiga a lavagem de dinheiro internacional. Quem começou a usar essa técnica no México foi Blanca Cazares, que trabalhava para o cartel de Sinaloa. Em 2008, ela foi indiciada por lavagem de dinheiro em Los Angeles e está foragida.

De acordo com investigadores americanos, há alguns anos, ela começou a importar seda e parafusos da Ásia para Los Angeles. Depois, os exportava para o México, onde os produtos eram revendidos a preços altos em sua cadeia de butiques Chika's.

Ursinhos de pelúcia. A tática dificulta a repressão. No ano passado, autoridades americanas indiciaram a empresa Angel Toy por lavagem de dinheiro. Ela é conhecida pela fabricação de ursinhos e coelhinhos de pelúcia. Os três principais executivos da companhia foram presos. Segundo investigadores, durante anos eles chegavam à fábrica carregando malas de dinheiro proveniente da venda de cocaína. Eles se referiam aos dólares como "papéis", "doces" ou "pneus", sem fazer menção a brinquedos.

No local, os empregados dividiam o dinheiro em maços de pouco menos de US$ 10 mil, valor acima do qual os bancos são obrigados a informar o depósito. Parte dos dólares era enviada à Ásia para compra de brinquedos que, depois, eram exportados para a Colômbia, onde eram vendidos em pesos colombianos - em seguida, já convertido, o dinheiro era transferido para narcotraficantes do país.

As operações comerciais, com frequência, envolvem um terceiro país, o que deixa ainda mais obscura a fonte do dinheiro ilícito. Autoridades mexicanas têm sido lentas ao agir contra a lavagem de dinheiro, em parte porque é algo novo. O método ilustra o fato de que cartéis sempre desenvolvem novos sistemas para fugir da fiscalização. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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