Cartéis mexicanos descobrem a América Central

Repressão contra as drogas no México empurra a violência dos narcotraficantes para Guatemala, El Salvador e Honduras

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

A guerra contra as drogas no México empurrou para o sul a violência dos narcotraficantes, que encontraram sossego para atuar nos pequenos países da América Central. Estados falidos, tomados pela corrupção, instituições fracas e policiais mal treinados foram um convite para os cartéis de Sinaloa, do Golfo e Los Zetas, que estão abrindo campos de pouso na selva da Guatemala, lavando dinheiro em El Salvador e descarregando toneladas de cocaína em Honduras.

Quase toda a cocaína do mundo vem da Colômbia, do Peru e da Bolívia. O maior mercado consumidor é os EUA. A geografia, portanto, é cruel com a região. O caminho natural da droga é sair da América do Sul a US$ 2 mil o quilo e percorrer os países do istmo, antes de chegar ao México e entrar em território americano, onde se paga até US$ 12,5 mil pela mesma quantidade.

Segundo o Departamento de Estado dos EUA, 95% da cocaína da América do Sul passa pelo corredor centro-americano e os cartéis mexicanos já controlam 90% desse fluxo. Os dados fizeram o Banco Mundial decretar a droga como a maior ameaça à estabilidade da América Central.

O efeito da violência é sentido no cotidiano. Há duas semanas, 50 homens do cartel Los Zetas invadiram a fazenda Los Cocos, na Província de Petén, norte da Guatemala. Eles procuravam o dono, Otto Salguero, que supostamente trabalhava para o cartel do Golfo. Como não o encontraram, amarraram e torturaram 27 trabalhadores. Decapitaram 25 - os corpos dos outros dois foram encontrados com marcas de tiro. Com o sangue das vítimas, picharam ameaças na parede da casa e assinaram a barbárie: "Z200".

Foi o pior massacre na Guatemala desde o fim da guerra civil, em 1996. No dia seguinte, um terço do território guatemalteco amanheceu sob estado de sítio declarado pelo presidente do país, Álvaro Colom, que classificou a chacina como "uma selvageria total".

De acordo com um relatório da DEA, a agência antidrogas dos EUA, divulgado há duas semanas, os narcotraficantes mexicanos são a principal causa da violência na América Central. "Os criminosos prosperam onde o governo é fraco", diz o texto. "Os cartéis mexicanos lutam uns contra os outros e contra traficantes locais pelo controle desse corredor."

O impacto é letal. Segundo a ONU, Honduras, Guatemala e El Salvador estão hoje entre os países mais violentos do mundo. Na Guatemala, o número de assassinatos dobrou nos últimos dez anos. Em El Salvador, a taxa de homicídios já é mais alta do que durante a guerra civil. Em Honduras, o índice chegou a 77 assassinatos por cada 100 mil habitantes, três vezes mais do que no Brasil e recorde mundial.

"Em Honduras, o problema piorou muito depois que o México apertou o cerco contra os narcotraficantes", disse ao Estado Alfredo Landaverde, que foi assessor de segurança do governo hondurenho por dez anos. No ano passado, a polícia local, com ajuda americana, apreendeu cerca de 50 avionetas que descarregam drogas no país.

O governo estimava que uma tonelada de cocaína passasse por Honduras todos os anos a caminho do México. Há duas semanas, porém, a polícia teve de refazer as contas ao apreender, de uma vez só, 1,7 tonelada de cocaína em uma embarcação.

Lavagem de dinheiro. Os cartéis mexicanos também expandiram suas operações para El Salvador, que dolarizou sua economia em 2001. Com o dólar circulando como moeda local, o país virou uma trincheira do crime organizado e lugar perfeito para se lavar dinheiro.

Em El Salvador, os cartéis optaram por recrutar membros das gangues locais Mara Salvatrucha e Rua 18. Ambas surgiram em Los Angeles, nos anos 80, mas só começaram a aporrinhar a polícia do país depois que a bandidagem passou a ser deportada da Califórnia. Para analistas americanos, a aliança entre gangues locais e narcotraficantes mexicanos é um pesadelo, uma vez que os salvadorenhos controlam a distribuição de cocaína em várias cidades dos EUA.

Em El Salvador, a guerra contra as drogas está sendo perdida. O recém-formado cartel de Texis, da cidade de Texistepeque, já domina parte do norte do país. "Eles controlam policiais, juízes, políticos, além de território. Cobram um pedágio dos cartéis mexicanos para que a droga passe livremente", disse Jeannette Aguilar, da Universidade Centro-Americana, de San Salvador.

Segundo Mauricio Funes, presidente salvadorenho, os recursos do narcotráfico são maiores do que os disponíveis para combater o problema. O cenário pintado por ele, porém, é otimista. Na verdade, a dinheirama embolsada pelo crime é maior do que o PIB de qualquer país da região. A consultoria de risco Kroll estima que os cartéis mexicanos faturem US$ 40 bilhões anualmente - o dobro do PIB de El Salvador.

Dos países da região, a pior situação é a da Guatemala. Analistas calculam que o narcotráfico domine hoje 40% da economia local. Anualmente, US$ 10 bilhões em cocaína passam pelo país - 10% desse dinheiro é usado para subornar funcionários públicos, políticos, policiais e juízes. O presidente guatemalteco, Álvaro Colom, reconhece que os cartéis são a maior ameaça à região. "A gente faz o que pode para combatê-los com recursos mínimos", disse.

O Exército da Guatemala, que era o mais temido da América Central, está em frangalhos. Em 1996, os 36 anos de guerra civil chegaram ao fim com um acordo para a redução do efetivo militar de 50 mil para 16 mil homens. O corte deveria ser compensado com a ampliação da polícia, o que não ocorreu - a corporação tem hoje 25 mil agentes, metade do que deveria ter.

Os militares se queixam ainda da falta de radares de baixa altura, o que torna o céu da Guatemala um parque de diversões para avionetas de traficantes. O governo está sem ação. "Eles nos invadiram", afirmou Colom ao jornal espanhol El País, em maio. "Ou os países da América Central se unem para lutar contra os cartéis ou eles exterminarão nossas democracias."

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