Alan Ortega - 7 de junho de 2017/REUTERS
Alan Ortega - 7 de junho de 2017/REUTERS

Cartéis mexicanos disputam domínio pelo comércio de abacates, usados para lavar dinheiro

Consultoria diz que o produto corre o risco de se tornar "mercadoria de risco", diz o jornal 'The Guardian'; 19 foram mortos em chacina em agosto

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2019 | 11h52

CIDADE DO MÉXICO - O abacate está se tornando a mais nova frente de conflito entre cartéis mexicanos. Segundo estudo da consultoria britânica Verisk Maplecroft, publicado nesta segunda-feira, 30, pelo jornal The Guardian, o “ouro verde” é responsável pela morte de 19 pessoas mutiladas na cidade de Uruapan, no Estado de Michoacán, em agosto. 

Nove corpos estavam pendurados seminus em uma ponte. Inicialmente, havia a suspeita de que os assassinatos tinham ocorrido em razão de uma disputa de gangues de drogas. No entanto, a chacina, promovida pelo cartel Jalisco Nueva Generación, ocorreu pelo domínio do comércio local de abacate. 

O México é o maior produtor de abacate do mundo, especialmente a variedade conhecida como avocado. As exportações renderam US$ 2,4 bilhões no ano passado. O boom vem do crescimento da demanda na China, que aumentou seu consumo mil vezes entre 2011 e 2017. A rentabilidade também favorece. A fruta rende ao agricultor mexicano até 12 vezes o salário mínimo. Mas há ainda uma razão mais prosaica: a lavagem de dinheiro. 

Segundo Alfonso Partida Caballero, especialista em segurança pública da Universidade Autônoma de Guadalajara, o comércio é quase todo em dinheiro vivo e, para plantar o produto, não é necessária autorização de ninguém. “O Estado não tem nenhum controle. O dinheiro do crime organizado em Michoacán é todo semeado em abacate. Se o traficante planta mil árvores ou 10 mil, se colhe uma ou 10 toneladas, quem controla?”

Diversificação. O crescimento da indústria do abacate também vem às custas do trabalho escravo, infantil, além do desmatamento de florestas protegidas e da deterioração dos lençóis freáticos. “Em Michoacán, o abacate fornece a renda diversificada que os cartéis obtêm com o roubo de combustível em outras partes do México”, disse Christian Wagner, analista da Verisk Maplecroft.

De acordo com Falko Ernst, analista do International Crisis Group, o abacate faz parte do portfólio do s cartéis do México há décadas. “Mas não é apenas o abacate. O crime organizado mexicano há muito tempo vem diversificando suas receitas”, disse. “Quando você controla um território, explora qualquer commodity disponível: limão, mamão, morango, além de extração de madeira e mineração ilegal.” 

O México lidera a lista de exportadores mundiais de abacate, à frente da Holanda, um importante centro exportador não produtor, e do Peru. De acordo com o The Guardian, a maioria dos frutos do México vai para os EUA, apesar da produção doméstica na Califórnia e na Flórida. Os abacates nos supermercados do Reino Unido vêm principalmente da Espanha, Israel, África do Sul, Peru e Chile. A fruta também está em alta demanda na China, que importou mil vezes mais do produto em 2017 do que há seis anos.

Netflix

Na Netflix, a série Rotten trata dos cartéis do fruto no México. Em A Guerra do Abacate, o primeiro episódio da segunda temporada, é mostrado como a popularidade do fruto levou a onda de violência dos cartéis para os produtores de Michoacán.

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